Espaço de debate de temas de Economia Portuguesa e de outros que com esta se relacionam, numa perspectiva de desenvolvimento

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sábado, maio 07, 2011

Organização turística do país: "o modelo não se tem revelado eficaz"

Confirmou-se que os entrevistados dão elevada importância à promoção turística, mas as opiniões divergiram sobre a eficácia da estratégia de gestão e promoção turística concretizadas na região de turismo Porto e Norte de Portugal. Sobressai a importância do papel agregador da “nova” região de turismo, que consideram abranger um espaço muito vasto, mas que ao mesmo tempo encerra realidades bastante diferentes. A estratégia desta região de turismo é considerada por alguns entrevistados como sendo (demasiado) ambiciosa.
Apesar de reconhecerem a existência de uma evolução em matéria de enquadramento institucional, entendem que o modelo não se tem revelado eficaz, porque o turismo envolve vertentes como o planeamento e a valorização dos recursos e do património, que têm sido menorizadas.

Paula Cristina Remoaldo

sábado, abril 02, 2011

“O QUE FAZER PELA MINHA REGIÃO?”: CONCLUSÕES DA REUNIÃO ABERTA

«ADLEI – Associação para o Desenvolvimento de Leiria
Centro Associativo Municipal, Sala 12 ( Mercado Municipal de Leiria – ala nascente, 1º andar ) - 2400-221 Leiria
Apartado 1102 / 2401-801 Leiria
Telf: 244 815 160
Fax: 244 815 161

CONCLUSÕES DA REUNIÃO ABERTA
“O QUE FAZER PELA MINHA REGIÃO?”
A Região (Pinhal Litoral) tem mantido, nos últimos anos, uma posição de topo no “índice global de desenvolvimento regional”. O sucesso económico alcançado (conseguido num quadro geral de estagnação) e o bom desempenho à escala do país não podem, contudo, iludir dimensões da realidade regional que são fortes constrangimentos ao seu desenvolvimento. De entre esses constrangimentos sobressaem o seu mediano posicionamento relativo, medido pelo “índice de competitividade” (carências ao nível da inovação/tecnologia), o recuado posicionamento na dimensão da “qualidade ambiental”, a baixa massa crítica em vários domínios que a possa afirmar como um território competitivo e a projecte no plano nacional e internacional. Aqui faltam parcerias regionais e internacionais, assim como uma clara definição de aposta e de reunião de vontades e iniciativas em sectores económicos de futuro.
Continua, pois, a faltar uma estratégia activa para o território e uma liderança que agregue vontades e projectos, envolvendo empresas, universidades, politécnico e unidades de transferência de tecnologia, entre outros.
É fundamental, neste âmbito, pensar a região como um espaço sentido e vivido, construído na criação e no reforço de parcerias entre agentes de desenvolvimento, na coordenação de acções entre instituições e forças vivas regionais e que se possa considerar para além da área da Comunidade Intermunicipal do Pinhal Litoral.
É importante, no imediato, a concretização de espaços de reflexão conjunta de aprofundamento da realidade regional, de procura de opiniões e definição de objectivos comuns que se tornem suportes para uma estratégia de desenvolvimento que afirme a região por si própria, a partir da potenciação dos seus recursos. Neste sentido foram apresentadas algumas sugestões como um Fórum trimestral e um Fórum cívico na Praça Rodrigues Lobo.
Deve, também, manter-se activa a exigência de soluções que visem:
- concluir com urgência a rede rodoviária transversal;
- modernizar a Linha do Oeste;
- construir uma acessibilidade aérea a pensar no incremento turístico a partir do low cost, consensualizando uma opção de localização com urgência;
- melhorar a coordenação de eventos regionais a pensar no desenvolvimento turístico;
- solucionar os problemas ambientais que se arrastam;
- melhorar a oferta regional de infra-estruturas de tecnologia de informação e de comunicação, combatendo os atrasos regionais;
- não subestimar o contributo da educação para elevar os níveis de competitividade,
devendo o padrão de comparação ser o europeu e não o nacional;
- a necessidade de incrementar políticas activas de combate ao insucesso e ao abandono escolar e na qualificação da população activa;
- não abdicar e manter viva a consideração da oferta dos três graus no ensino superior público na região, visando dar um salto em I&D, mantendo no horizonte, se necessário e para esse efeito, a perspectiva da passagem do IPL a universidade.
Foi, igualmente, reconhecida a necessidade de valorizar e dar a conhecer a acção que se desenvolve ao nível intermunicipal (AMLEI;ADAE;CIMPL). Existem práticas e projectos muito positivos que mostram que há condições para aprofundar a cooperação intermunicipal e obter consensos em projectos comuns para a região, optimizando meios e recursos e dando resposta aos problemas do desenvolvimento local e das populações. Neste quadro é possível pensar a intervenção no território com programas que não sejam apenas o somatório de projectos municipais, mas o resultado de uma visão integrada de intervenção com novos projectos que valorizem e afirmem o território no seu conjunto. Devem ter-se em atenção os actuais problemas do financiamento do poder local, mantendo sempre presente a defesa da sua autonomia e das suas competências.
Desta Reunião Aberta ficou registado um conjunto de opiniões que exigem debate e aprofundamentos futuros, como são o caso do papel do Estado/Parcerias Público - Privadas, da Segurança Interna/Justiça - Campus da Justiça em Leiria, dos sectores económicos em crise, dos graves problemas de exclusão social e o papel da Adlei na constituição de uma Agência de Desenvolvimento Regional. Entendeu-se, também, que é preciso prosseguir a reestruturação administrativa do Estado, dando coerência territorial aos órgãos desconcentrados da administração central e promovendo a descentralização efectiva de competências para a região.
Considerou-se necessário contrariar o actual processo de centralização e esvaziamento de funções na região, assim como manter aberto o debate sobre o modelo de descentralização e de regionalização.
Finalmente entendeu-se considerar com urgência os problemas dos sectores do turismo, da construção civil e da cerâmica, exigindo apoios específicos à sua reestruturação e valorizar o papel da agricultura regional na criação de emprego, no contributo para a superação do nosso défice alimentar com o reforço dos apoios aos jovens agricultores, na dinamização de mercados locais de venda de produtos agrícolas e de redes de lojas no exterior, entre outros.
A Direcção da ADLEI
Leiria, 28 de Março de 2011»

(reprodução do documento em título, divulgado pela ADLEI entre os seus associados, via correio electrónico, durante o dia de ontem)

terça-feira, março 29, 2011

Leiria e a sua “região”: alguns dados e muitas interrogações

1. Afastado que estou do quotidiano de Leiria, tomando o conceito em acepção ampla, a ligação afectiva que mantenho com este território leva-me a olhar com curiosidade para os dados que me vão chegando, acabando surpreendido pelo contraponto que se me oferece existir entre o sucesso económico que vai alcançando e a inexistência de um projecto (colectivo).

2. Uma ilustração ainda recente da realidade a que aludo pode ser encontrada no “Índice Sintético de Desenvolvimento Regional”, onde, no “índice global” o Pinhal Litoral, unidade estatística onde se integra Leiria, aparece na 2ª posição. Ladeando a NUT III Pinhal Litoral encontramos a Grande Lisboa, em expectável 1º lugar, e o Baixo Vouga.

3. O desempenho que identifico foi alcançado num quadro de estagnação do país, o que acaba por reforçar o mérito do percurso feito. Não quer isso dizer que o território em causa não padeça de constrangimentos vários, que o “índice de competitividade”, presente no mesmo relatório, põe a nu, ao posicioná-lo na 10ª posição. Pior é o retrato que lhe fica na dimensão “qualidade ambiental” (dados de 2006), onde cai para a 21ª posição, num total de 30 NUT III.

4. Referi-me a Leiria em acepção ampla, isto é, se quiserem, à “região de Leiria”. Por outro lado, na invocação de dados, trato do Pinhal Litoral, que será um conceito estreito de região de Leiria. Se a leitura de “região” fosse feita em acepção mais ampla, as coisas complicar-se-iam. Na verdade, ao lado do Pinhal Litoral, o Pinhal Interior, Norte e Sul, e o Oeste são realidades bem diferentes.

5. Na linguagem comum usa-se o termo região em muitos sentidos. Por contraponto, esclareça-se que uma região é, em primeiro lugar, uma comunidade no sentido subjectivo do termo. Tem implícito o sentimento de pertença. É muito mais que um território delimitado por uma “fronteira”, uma estrutura de poder, uma unidade territorial para fins estatísticos. É nesta dimensão que a região pode ser pensada como instrumento de desenvolvimento.

6. Quer-se com isso dizer que, pese o desempenho global positivo que a “região” manteve na última década e meia, é discutível que possa continuar a prescindir de uma estratégia activa. Num quadro de competição aberta, a coordenação de acções, a parceria entre agentes de desenvolvimento, a reunião de massas críticas e a definição esclarecida de apostas em produtos com futuro não parece poder viver exclusivamente de inércias.

J. Cadima Ribeiro

(artigo de opinião publicado em 2011/03/28 no Diário de Leiria, no contexto de colaboração da ADLEI com o jornal no âmbito de coluna regular designada "Cidadania Activa")

quinta-feira, março 10, 2011

O sector dos vinhos em Portugal: alguns dados

1. Em termos de produção de vinho, Portugal ocupava em 2008 o 5º lugar na Europa e o 10º a nível mundial. No mesmo ano, a União Europeia a 15 (países antes dos alargamentos mais recentes) representava 55% do mercado mundial. De um modo geral, nos últimos anos tem-se verificado uma evolução decrescente da produção na Europa e um aumento nos novos produtores de vinho.
2. Nas últimas décadas verificou-se uma queda nas exportações dos 5 principais países exportadores de vinho da União Europeia e uma evolução de sentido contrário nas exportações dos países emergentes (países do Novo Mundo). Entre os países emergentes que vêm reforçando a sua posição no mercado mundial encontram-se o Chile, a África do Sul e a Argentina.
3. Em termos de consumo, Portugal surge também na 5ª posição na Europa e em 12º em termos mundiais. No que se refere à quota de mercado no consumo mundial, esta tem vindo a oscilar, nos últimos trinta anos, entre os 3% e 4%. A França lidera o mercado mundial no consumo, com 14% de quota, seguida pelos Estados Unidos da América e pela Itália. Nos principais países consumidores, especialmente em França e Itália, a tendência geral tem sido a do decréscimo (ligeiro) do consumo de vinho.
4. Como é geralmente sabido, em Portugal a vinha está presente em todo o país, mas as regiões que mais contribuem para a produção nacional são Trás-os-Montes, com 29%, e as Beiras com 22%.O peso do sector do vinho na produção agrícola tem vindo a aumentar ao longo da última década, situando-se nos últimos anos em valores em torno dos 15% do total do sector (dados do Instituto do Vinho e da Vinha).
5. Portugal é um país com invejáveis potencialidades para a produção de vinhos de qualidade em razão das boas condições climáticas e geológicas, da detenção de castas únicas e da tradição na produção do produto. No total, em 2008/2009, os vinhos com denominação de origem protegida representaram 74% da produção total. Em grande parte, este valor ficou a dever-se ao peso que os Vinhos do Porto detêm nesta categoria.
6. Falando-se de Vinho do Porto, importa assinalar que no quinquénio 2000 a 2005 este registou um decréscimo ligeiro em matéria de exportações, em volume e em valor, tendência esta que se manteve até 2009. Todavia, em 2010, primeiro semestre, as exportações do Douro cresceram 10%.
7. Pese a “multidão” de pequenos vitivinicultores exitentes no Douro, cinco grandes operadores (a Symington Family Estates, a Taylor Fladgate, La Martiniquaise, a Sogrape e a Caixa Nova) controlam cerca de 80% do mercado do Vinho do Porto.
8. As dificuldades enfrentadas pelas empresas produtoras e exportadoras de vinhos, incluindo as de Vinho do Porto, e a evolução registada nas estruturas de mercado são consequência da conjugação de vários factores, onde avultam: i) a concorrência mencionada de novos países produtores, situados no novo mundo (Américas, Oceania e África); ii) a concorrência aos vinhos provinda de refrigerantes, cervejas e vinhos espirituosos; iii) e a evolução dos gostos dos consumidores. Nesse quadro competitivo, o sucesso das empresas não pôde deixar de considerar a internacionalização, a introdução de inovação no processo de produção e de transformação das uvas e, naturalmente, também o recurso a trabalho mais qualificado que, aparte dar resposta às exigências de inovação de processo, fosse capaz de encontrar soluções que atendessem à evolução das preferências dos consumidores.
9. Nessa trajectória e por referência à realidade nacional, os problemas que foram sendo sinalizados e os desafios que importava vencer eram/são, de um modo geral, aqueles que foram identificados em 2004 por uma equipa liderada por Michael Porter, num estudo realizado sob encomenda da ViniPortugal; a saber: o espartilhamento existente no sector; a presença de uma mentalidade aversa ao risco; a falta de saber-fazer técnico; a inadequação da legislação exigente; e a insuficiente aposta na internacionalização. Felizmente, algo foi evoluindo nessas dimensões, conforme o parecem evidenciar alguns resultados alcançados, quer em termos de preservação de quotas ou de penetração em novos mercados e segmentos de mercado, quer em termos de qualidade dos vinhos que vêm sendo postos ao dispor dos consumidores. Este é, entretanto, um esforço que jamais se poderá dar por concluído.

J. Cadima Ribeiro

(artigo de opinião publicado na edição de 2011/03/10 do Jornal de Leiria)

Nota: a fonte principal dos dados usados neste texto foi uma dissertação de mestrado entretanto apresentada na EEG/UMinho, de que é autor Filipe Antunes.

quinta-feira, janeiro 20, 2011

Sporting de Braga versus União de Leiria

1 - Quais são as razões do sucesso recente do projecto do Sporting de Braga?
O sucesso relativo do Sporting de Braga não é tão recente quanto se pode pensar olhando apenas para a visibilidade alcançada no Campeonato Nacional de Futebol na época passada, em que disputou o título com o Benfica até à última jornada, ou para a sua boa prestação na presente época futebolística na Liga dos Campeões. Em boa verdade, o clube vinha tendo boas prestações nas competições europeias (UEFA) desde há várias épocas e posicionando-se regularmente no 1º quarto da hierarquia de classificações dos campeonatos nacionais.
Este desempenho é consistente com uma liderança directiva estável e que se revelou ambiciosa. O desempenho competitivo da equipa e a consistência percebida pela opinião pública do projecto desportivo do clube foram chamando, progressivamente, mais gente para os jogos e conquistando a adesão de mais adeptos.
A existência de boas infra-estruturas de apoio, nomeadamente com a construção do novo Estádio Municipal de Braga, também terão jogado o seu papel.
Como súmula de tudo isso, hoje em dia, o Sporting de Braga é mesmo o primeiro clube de futebol entre as gentes de Braga e de muitos dos municípios envolventes, sendo fácil encontrar quotidianamente na cidade pessoas envergando camisolas ou cachecóis do clube ou vê-los a enfeitar os carros.

2 - É possível fazer um projecto semelhante em Leiria?
Ser possível é. Pelos elementos que aporto sobre a realidade do Sporting de Braga, ficará claro que não será algo que se consiga em poucos dias e sem trabalho de muitos. Aliás, em certos momentos da sua história ainda curta, o União de Leiria conseguiu mobilizar mais adeptos do que o que tem conseguido nos últimos anos e atrair muito mais as atenções de quem segue o fenómeno do futebol. Tenha-se presente, por exemplo, o que se passou com o clube durante a breve passagem por Leiria de José Mourinho.
Note-se que uma boa carreira de um clube de futebol que se identifique com uma cidade ou uma região é um elemento de mobilização e orgulho para os residentes dessa cidade ou território e um importante instrumento de marketing desse mesmo território.

3 - Quais são as condições necessárias para que isso aconteça?
Do que se disse antes, resultará que nada ou muito pouco se consegue também neste âmbito sem projectos e lideranças sólidas, conjugadas com alguma sorte a nível de desempenho desportivo. E, note-se, a sorte também se procura.
Já que o não disse antes, talvez valha a pena deixar aqui o registo de que uma das dimensões da política de relações públicas mantida pelo Sporting de Braga tem passado por levar periodicamente alguns dos seus jogadores com mais visibilidade às Escolas do município para breves encontros com as crianças e jovens. Por outro lado, o clube não é elemento de arremesso entre as diferentes forças partidárias ou actores institucionais da cidade. Essas são também peças às quais é preciso estar atento.

4 - Quais são as principais fragilidades que Leiria tem que impedem que isso aconteça?
Na actualidade, sigo a bastante distância a realidade do União de Leiria e da cidade. Do que me chega, sugere-se-me que a direcção tem mantido uma estratégia errónea na condução do clube e não tem sabido constituir-se num bom interlocutor da Câmara Municipal e de outros agentes institucionais que importa captar para o projecto de afirmação do União de Leiria. Também em matéria de estratégia de comunicação e de relações públicas haverá muito que fazer.
Naturalmente que, paralelamente, tem que se cuidar da componente desportiva e, a esse nível, a aposta em treinadores adequados, numa perspectiva de um trabalho de médio prazo é incontornável. Sem resultados desportivos também não se consegue ter adeptos que vistam a camisola do clube, em sentido real e figurado.


J. Cadima Ribeiro

(Resposta a questões do jornalista Miguel Sampaio, do Jornal de Leiria, datadas de 2011/01/13)

terça-feira, janeiro 04, 2011

O ano de 2010 em revista: uma leitura pessoal

1. Seguindo o exemplo de outros, porque ainda há exemplos que não nos envergonham, decidi fazer neste meu primeiro texto de 2011 um apanhado de temas por mim versados no ano precedente no contexto da minha colaboração no Suplemento de Economia do Diário do Minho. A abrir o novo ano, parece-me ainda tempo de fazer o balanço do ano findo, para retirar lições do que foi mal e sublinhar o que importa replicar.
2. Dando corpo ao ensejo antes enunciado, cumpre assinalar que o tema tratado no primeiro artigo que produzi em 2010 foi, nada mais, nada menos, que a pobreza e as desigualdades em Portugal. Numa altura em que nos sabemos, genericamente falando, mais pobres que há um ano, não deixa de ser premonitória e irónica a escolha. Assinalava-se aí que, “entre 1997 e 2007, a taxa de pobreza em Portugal se reduziu cerca de quatro pontos percentuais, passando de 22% para 18%”. Desgraçadamente, não é preciso recorrer a grandes estudos para concluir que o período mais recente, com particular realce para o último ano, foi de claro retrocesso. Os dados do desemprego (em termos médios nacionais, em torno dos 11%) são um indicador seguro de desastre social que o país experimenta.
3. Em Fevereiro pp. referi-me à política energética na U.E. e em Portugal. Encontrei aí pretexto para invocar as alterações climáticas e o clima de incerteza que se vive no que ao abastecimento energético se refere, e destacar a enorme vulnerabilidade que o país mantém nesse domínio, sabido que Portugal é um dos estados-membros da União Europeia com uma maior nível de dependência energética. Na vertente oposta, foi também ocasião para dar conta dos passos positivos ultimamente dados em termos de produção de energia a partir de fontes renováveis, que já vem surtindo efeito na redução da factura energética.
4. O artigo publicado no mês seguinte, com o título O Quadrilátero Urbano do Baixo Minho, foi também um texto que trazia sinais de esperança. Neste caso, a esperança da materialização de um projecto de concertação de investimentos e de acções entre vizinhos, em prol da competitividade e do desenvolvimento do território comum. Depois disso pouco mais veio a público sobre como se está a construir essa realidade ambicionável. Do mal, o menos: parece que não se retrocedeu, como se pode inferir da instalação em curso da comunidade intermunicipal para fins específicos criada para dar corpo institucional à parceria de cidades constituída.
5. Voltei à problemática do desenvolvimento regional, em contexto mais genérico, no texto de Setembro. O pretexto foi a publicação de um livro que me chegou do outro lado do Atlântico, da autoria de Valdir Roque Dallabrida. Por via dele, fui reconduzido à memória de um amigo comum (Dinizar Becker), prematuramente falecido, e ao retomar de muitas ideias em que me reconheço expostas na dita obra. Entre elas, encontrei a da inviabilidade de serem prosseguidas aproximações de natureza disciplinar na interpretação das realidades complexas das regiões e na construção de respostas em matéria do seu desenvolvimento.
6. O artigo de Outubro foi de protesto, como já o havia sido o de Março, tendo ambos como pano de fundo os programas de estabilidade e crescimento, o primeiro e o segundo, e quantos mais hão-de vir, que irão ser tantos quantos ditar a incompetência e falta de projecto para o país dos governantes que vamos tendo. Escrevi então (Outubro) e reafirmo agora (atente-se, a propósito, na conversa natalícia, em família, de Sócrates) “que um incompetente nunca admite a sua incompetência”. O que vale para José Sócrates, vale em para Fernando Teixeira dos Santos, que, por enquanto, só não faz conversas em família. Reafirmo também o que disse em Março; concretamente: que os programas de estabilidade e crescimento fazem apenas sentido “quando tenham como objectivo o crescimento económico e o bem-estar das populações”.
7. O último texto do ano dediquei-o à proposta da transformação da Universidade do Minho numa fundação. Não fui além da produção de algumas considerações preliminares porque o debate sobre a referida problemática está apenas no seu início e, também, em razão da respectiva complexidade, que parece só não ser reconhecida pelo(s) respectivo(s) proponente(s). Preliminar que foi a abordagem, serviu para evidenciar a falta de oportunidade da proposta, o que, em razão do desenho feito neste texto da situação do país e da respectiva (des)governação, não precisa de ser sublinhado. Na altura, não foi deixado explicito que o artigo servia também para rejeitar a ideia que o devir da Instituição se deva construir a partir de supostas visões iluminadas mantidas por certos agentes bem colocados na hierarquia do poder, mas pode sê-lo agora. Em aproximação alternativa, defende-se que uma “academia que aspira e exige a autonomia” é uma academia que é capaz de colectivamente definir um projecto e abraçar o processo da sua concretização, e é uma academia liberta de personagens providenciais. O que se diz a propósito do momento que a Universidade do Minho atravessa é também válido para o país.

J. Cadima Ribeiro

(artigo de opinião publicado na edição de 2011/01/04, do Suplemento de Economia do Diário do Minho, em coluna regular intitulada "A Riqueza das Regiões")

segunda-feira, outubro 11, 2010

Apresentação do livro "Desafios Emergentes para o Desenvolvimento Regional"


«A Delegação dos Açores da Ordem dos Economistas e a Associação Portuguesa para o Desenvolvimento Regional vem pelo presente convidar V. Ex.ªs para o lançamento do livro “Desafios Emergentes para o Desenvolvimento Regional”.
- http://www.apdr.pt/livros/
O Livro "Desafios Emergentes para o Desenvolvimento Regional" vai ser lançado no próximo dia 13 de Outubro, pelas 17h00, no Auditório do Complexo Pedagógico do Pico da Urze da Universidade dos Açores (Angra do Heroísmo).
Esta obra foi coordenada pelo Prof. Doutor José Manuel Viegas e pelo Prof. Doutor Tomaz Ponce Dentinho, sob a chancela do Observatório do QREN, tendo contado com o contributo de vários autores.
O evento incluirá uma mesa redonda sobre o tema do livro:
Coordenação: Dr. Rui Luís (Univ. dos Açores/ Delegação dos Açores da Ordem dos Economistas)
Participantes:
- Prof. Doutor Tomaz Ponce Dentinho (Univ. dos Açores/ APDR);
- Prof. Doutor Mário Fortuna (Univ. dos Açores/ Delegação dos Açores da Ordem dos Economistas);
- Prof. Doutor Nuno Martins (Univ. Católica Portuguesa).
Agradecemos desde já a vossa atenção. E esperamos poder contar com a presença de V. Ex.ªs no Lançamento do Livro.
Com os melhores cumprimentos,
Elisabete Martins
Secretariado da APDR»

(reprodução de mensagem que me caiu entretanto na caixa de correio electrónico, com a proveniência que se identifica)

sábado, outubro 09, 2010

sexta-feira, outubro 01, 2010

"É preciso ter estratégia e capacidade de iniciativa e liderança, que são dimensões deficitárias em Portugal"

- "Quais são as nossas vantagens competitivas (Zona costeira? Ponto geográfico? Energias Renováveis?....?)?"[MBS]

- No que e refere a áreas de oportunidade, as energias renováveis são claramente uma oportunidade a explorar, mas o turismo, em diversas dimensões, também o é e tem sido subaproveitado. Na dimensão potencial turístico e energético, a zona costeira é uma fonte potencial de vantagens competitivas; tem é que ser convenientemente explorada, como muitos outros atributos, incluindo o posicionamento geográfico.
A meu ver, os territórios e os países, de um modo geral, devem constituir carteiras de produtos e organizá-los de modo a tirar deles o melhor partido económico, muito mais do que fazer apostas em factores ou produtos isolados. Para tal é preciso ter estratégia e capacidade de iniciativa e liderança, que são dimensões deficitárias em Portugal, nos mais tempos recentes, pelo menos.

J. Cadima Ribeiro

terça-feira, setembro 14, 2010

Desenvolvimento Regional: notícia de um livro que me chegou do outro lado do Atlântico (II)

“Desenvolvimento Regional: por que algumas regiões se desenvolvem e outras não?” é o título de um livro (edição UNISC, Santa Cruz do Sul, 2010) sobre a problemática em título que o seu autor, Valdir Roque Dallabrida, me fez chegar há um par de meses. Como não basta vontade para que possamos fazer certas coisas, só nestes últimos dias tive oportunidade de fazer a sua leitura e, mesmo assim, a correr.
Trata-se de uma obra com objectivos didácticos, onde, conforme escreve no Prefácio Carlos Brandão, Valdir Dallabrida, actualmente professor da Universidade do Contestado, Santa Catarina, Brasil, “busca sintetizar as diversas abordagens teóricas que buscaram enfrentar esse enigma: por que algumas regiões se desenvolvem e outras não?” (p.9). Conclui o prefaciador que o “livro é oportuno e bem-vindo e poderá contribuir para sanar essa enorme lacuna de textos sintéticos e didácticos que busquem melhor qualificar o debate sobre o que faz o desenvolvimento de uma região e como promovê-lo” (p.12).
Neste sentido, da qualificação do debate sobre o desenvolvimento dos territórios e, até, do país, diria que contributos de natureza similar fazem falta igualmente em Portugal, se bem que a falta de qualidade do debate público a que amiúde se assiste resulte mais da desqualificação dos intervenientes que da ausência de informação técnico-científica de base. Recordando um pensamento que vi reproduzido não há muito tempo num blogue, diria a propósito, que “É impossível derrotar um ignorante em argumentação” (William G. McAdoo) e será porventura daí que relevará a qualidade do debate (político e técnico) que temos.
Encontrei no livro em causa muitas ideias em que me reconheço, nomeadamente as que insistem i) na inviabilidade de prosseguir aproximações de natureza disciplinar na interpretação das realidades complexas das regiões e na construção de respostas em matéria do seu desenvolvimento, e ii) na inviabilidade e/ou inutilidade de uma teoria geral do desenvolvimento, em razão da dita complexidade dos territórios, decorrente de determinantes endógenos (história, geografia, contexto económico e social, instituições, cultura) e exógenos (relacionamento económico, social e político com o restante território nacional e com o exterior) que são sempre singulares.
Como foi invocado, o autor do texto definiu o objectivo ambicioso de “fazer uma breve síntese das principais abordagens teóricas sobre desenvolvimento” (cf., Introdução, p.7) e, para mais, fazê-lo com recurso a uma linguagem simples, que permita ir além da “clientela académica”. Era um enorme desafio esse e será, porventura, essa uma das limitações maiores da obra. Isto é, nunca seria fácil dar notícia em poucas páginas (212) dos contributos em matéria de desenvolvimento do território de autores que vão de Quesnay, Adam Smith e Alfred Marshall a Albert Hirschman, Paul Krugman e Vázquez-Barquero, passando por Celso Furtado e S. Boisier, entre muitos outros.
Confesso que tive dificuldade em reconhecer no texto alguns autores, ficando-me a dúvida se foi a brevidade da referência que fez parecer reduzida a sua contribuição ou se Valdir Dallabrida fez das ideias daqueles leitura diferente daquela que eu faço. Meramente a título de exemplo, da referência que a dada altura faz a François Perroux retenho que este vê o desenvolvimento como “combinações de transformações de ordem mental e social de uma população que lhe possibilita o aumento cumulativo e duradouro do seu produto real global” (p.159). Modestamente, penso que, nessa dimensão de pensar social e institucionalmente as dinâmicas económicas territoriais, Albert Hirschman e Gunnar Myrdal, autores da mesma corrente de pensamento seus contemporâneos, foram mais longe que Perroux, até por a contribuição deste último relevar de uma aproximação muito mais micro aos fenómenos económicos.
Sem descurar a importância e contributo para a compreensão das realidades brasileira e da América Latina, também me parece discutível o destaque que tem no livro Celso Furtado, que conheço muito mais como autor do crescimento e do desenvolvimento prosseguindo abordagens macroeconómicas que aproximações territorializadas.
Lendo esta obra de Valdir Dallabrida, voltei a confrontar-me com algo que se me sugeriu deste o primeiro contacto que mantive com investigadores brasileiros, mesmo que tal não seja tão presente nele quanto noutros que conheci: refiro-me ao universo distinto de referências que parece ser mantido pelos académicos europeus e da América Latina. Haverá razões para tal, sobretudo no passado. Não sei se em expressão disso, causou-me estranheza ver atribuída a “paternidade” da Teoria da Base Económica de Exportação a D.C. North (p.52) e referida a sua génese entre as décadas de 50 e 60 do século XX (p.50). Para mim, a primeira grande referência que se me sugere quando se invoca a Teoria da Base é H. Hoyt (1936-1939).
Concluo, sublinhando que o trabalho “agora” dado a conhecer por Vadir Dallabrida merece bem uma recensão que vá para além da brevidade destas notas. É ele próprio que a solicita, “para que, no futuro, se possa aperfeiçoar o texto” (p.21).

J. Cadima Ribeiro

(artigo de opinião publicado na edição de 2010/09/14 do Suplemento de Economia do Diário do Minho, no contexto de coluna regular, agora iniciada, denominada "A Riqueza das Regiões")

domingo, setembro 05, 2010

"Porque algumas regiões se desenvolvem e outras não?”

Neste sentido, da qualificação do debate sobre o desenvolvimento dos territórios e, até, do país, diria que contributos de natureza similar [entenda-se: ao de Valdir Roque Dallabrida, 2010, “Desenvolvimento Regional: por que algumas regiões se desenvolvem e outras não?”, edição UNISC, Santa Cruz do Sul] fazem falta igualmente em Portugal, se bem que a falta de qualidade do debate público a que amiúde se assiste resulte mais da desqualificação dos intervenientes que da ausência de informação técnico-científica de base. Recordando um pensamento que vi reproduzido não há muito tempo num blogue, diria a propósito, que “É impossível derrotar um ignorante em argumentação” (William G. McAdoo) e será porventura daí que relevará a qualidade do debate (político e técnico) que temos.

J. Cadima Ribeiro