Espaço de debate de temas de Economia Portuguesa e de outros que com esta se relacionam, numa perspectiva de desenvolvimento

sábado, dezembro 09, 2006

20 anos de integração europeia: desafios para Portugal

Como este ano está mesmo quase a finalizar é pertinente efectuar uma referência aos 20 de anos de adesão de Portugal à União Europeia.
Existem muitos indicadores que demonstram a importância desta adesão, que penso ser pertinente referi-los. No total, Portugal recebeu da União Europeia, nos últimos 20 anos, 42020 milhões de euros de fundos estruturais e 6302 milhões de euros do Fundo de Coesão. O investimento em acessibilidades foi muito significativo. Em 1986 havia 196 quilómetros de auto-estradas; hoje há 2091 quilómetros, que representam 16,5% do total das infra-estruturas rodoviárias do país. No que se refere ao Produto Interno bruto (PIB) a diferença de Portugal em relação à média europeia diminuiu: o PIB per capita (em Padrão de Poder de Compra) passou dos 54,2% em 1986 para os 68% em 2003 relativamente à U.E. dos 15 e 74% da U.E dos 25. Há 20 anos a agricultura, a silvicultura e a pesca representavam 9,4% da economia portuguesa. Hoje esse valor é de 3,9%. A indústria transformadora representava 25%; hoje está nos 18,2%. Num registo inverso, o peso dos serviços subiu para 66,9%. A inflação sofreu uma clara descida de 11,7% para 2,2%. As taxas de juro também mudaram radicalmente nos últimos 20 anos. Em 1986, Portugal registava uma taxa de juro na ordem dos 15,8%. Em 2004 esse número desceu até aos 3,4%. A U. E. reforçou o seu peso enquanto parceiro privilegiado de Portugal. A taxa de exportações para os países da U.E. subiu dos 57% para os 80% e a das importações passou dos 44,9% para os 77%. A percentagem da despesa do PIB em Investigação e Desenvolvimento passou de 26,4% da media europeia para os 40,2%. Em 1986 a despesa representava 0,41% do PIB. Em 2003 esse número subia para os 0,78%.
A meta da Agenda de Lisboa para a U.E situa-se nos 3%. Existem muitos mais indicadores que apresentam uma evolução positiva. No entanto a economia portuguesa atravessa vários desafios actualmente uma vez que esta a crescer a um ritmo inferior à media europeia ou seja estamos num momento de divergência com a Europa uma vez que se assiste a uma deslocalização de empresas nos sectores tradicionais bem como o diminuto mercado português que não consegue abraçar os desafios da globalização. No entanto as novas tecnologias são um dos poucos sectores em que Portugal tem uma clara oportunidade de afirmação num contexto global. Também já percebemos que o factor de diferenciação preço é passageiro e um erro estratégico (industria têxtil).
O alargamento da U.E a 25 países e a partir de 1 de Janeiro de 2007 a 27 não deve ser encarado como um mal, que proporcionará mais concorrência mas pelo contrário deve ser encarado como uma oportunidade, um maior mercado com regras claras e conhecidas. Devemos ter presente que a concorrência é global e não apenas europeia já que a localização geográfica é cada vez menos importante devido à diminuição dos custos de transportes que se tem verificado.
Apresentam-se assim três desafios que Portugal terá de ultrapassar para voltar a convergir com U.E: a educação; a Inovação, Investigação e desenvolvimento; e o ambiente propicio para facilitar os dois desafios anteriores ou seja é necessário uma legislação eficiente, um ambiente politico estável bem como uma politica de financiamento clara. O empreendedorismo é assim visto como fundamental. A actividade empreendedora deve ser efectuada tendo em consideração a inovação e a investigação para podermos diferenciar os nossos produtos no mercado global. As empresas nacionais necessitam de pensar internacional de preferência desde o início.
O poder politico já acordou para esta necessidade e já introduziu o plano tecnológico havendo já exemplos a despontar em Portugal. É preciso acreditar e fazer acontecer.

Lara Pinto

(doc. da série artigos de análise/opinião)

Observando o comportamento dos consumidores

Depois de ter lido o artigo de Susana Marques intitulado “o espião das compras” achei por bem partilhar convosco algumas das ideias que interiorizei e sobre as quais reflecti um pouco. Este artigo surgiu depois de ler algumas tácticas lançadas por Paço Underhill para um negócio ter sucesso.
Hoje em dia deparamo-nos com espaços comerciais que promovem produtos pouco comuns ou ditos exóticos/ diferentes basta pensarmos nas lojas e restaurantes chineses, indianos e italianos que estão já bem difundidas por todo o pais. E como bem sabemos os portugueses têm aderido a esta multiplicidade de produtos. Como tão bem sabemos, urge que o nosso pais se torne competitivo quer nas relações comerciais com o exterior, quer em relação aos produtos que se têm introduzido crescentemente nos nossos mercados internos.
Segundo Paço Underhill “as forças competitivas obrigam-nos a pensar nas tácticas e só chegamos às tácticas se observarmos os consumidores”, assim a área do marketing e da inovação serão uma das respostas aos problemas competitivos do nosso pais em relação ao exterior e aos produtos que se têm introduzido com facilidade no nosso mercado.
Há que observar a atitude dos consumidores já que esta denuncia as suas necessidades, só temos que olhar atentamente. Uma vez que é preciso gastar milhões na concepção de espaços comerciais, o nosso trabalho não deve acabar aqui, têm que gastar algum tempo a observar o resultado, se é eficiente.
Um exemplo simples disto é o caso de uma mulher que entra numa loja de pronto-a-vestir acompanhada pelo marido, é bem provável que este experimente momentos de tédio mas a situação pode ser solucionada se colocarmos um cadeira ou sofá estrategicamente posicionados. Assim quando abrirmos um estabelecimento comercial é importante tudo que diz respeito a este, tem que ser “bonito, luminoso e estar integrado numa zona agradável.
Este artigo deixa algumas pistas para o sucesso de um negócio: “ o centro comercial terá que ser algo mais do que um lugar de compras”, tem que ser um espaço público aprazível e com vários focos de interesse.

Fátima Couto

(doc. da série artigos de análise/opinião)

Os défices e as dificuldades…

Contrariamente ao que se pretende fazer crer o défice orçamental não é, nem sob o ponto de vista empírico nem sob o ponto de vista técnico, insustentável, nem é o problema mais grave que o País enfrenta. Ele é fundamentalmente consequência e sintoma de outros problemas muito mais graves cuja resolução é mais urgente, já que só esta é que poderá permitir o desenvolvimento sustentado de Portugal e a resolução de uma forma verdadeira e duradoura do problema do défice orçamental. Muito mais grave do que o défice orçamental é o défice comercial (-10,8% em 2004), que já atinge o dobro do défice orçamental, e que revela uma perda crescente de competitividade das empresas portuguesas quer nos mercados externos quer mesmo no mercado nacional. A provar que o défice orçamental português não é insustentável está o facto de que Portugal no passado já ter tido défices superiores ao actual, e apesar disso a economia cresceu e o País ultrapassou a situação.
Durante os governos de Cavaco Silva os défices orçamentais foram, em vários anos superiores ao actual, e não se ouviu dizer que o défice orçamental era insustentável. O mesmo sucedeu em relação ao valor da Divida Pública medida em percentagem do PIB. Como mostram também os dados disponíveis, se se comparar o valor de 2004 - cerca de 61% do PIB – quer com valores atingidos nos anos do governo Cavaco Silva (variaram entre 59,1% e 64,3% do PIB) quer com a média da UE15 (64,3% em 2003) rapidamente conclui-se que o rácio da divida portuguesa não se afasta desses valores, até é inferior.
Para além disto, os economistas sabem que um défice gerado por investimento produtivo ou para aumentar a eficiência de serviços que tornem possível um desenvolvimento elevado, é um bom défice porque gera mais riqueza que acaba por pagar esse défice.
A economia portuguesa está a crescer, em média, a um ritmo que corresponde a metade do da economia da União Europeia, e esta está a crescer a um ritmo correspondente a metade do ritmo de crescimento da Economia Mundial. Tudo isto, a manter-se, só poderá determinar para Portugal mais estagnação económica e mais desemprego
O Plano de Investimentos, que o governo apresentou no Centro Cultural de Belém, em 5 de Julho de 2005, é um tipo de investimento que tem um efeito reduzido no aumento da competitividade e da produtividade das empresas repetindo com um Plano de investimentos desta natureza é de prever que não consiga tirar o País, de uma forma sustentada, do estado de estagnação económica em que se encontra. É necessária uma forte intervenção do Estado visando a modernização das empresas, inevitavelmente assistir-se-á no máximo daqui a 3 anos a milhares de despedimentos e à destruição de uma parte significativa de importantes sectores produtivos.
Mas mais grave ainda é a estagnação e mesmo o retrocesso económico que se está a verificar em Portugal, determinado pela perda crescente de competitividade da Economia Portuguesa cujo indicador mais visível é o défice da Balança Comercial que atinge já o dobro do défice orçamental, mas que não tem merecido qualquer a atenção mesmo por parte do governo nem do pensamento económico dominante nos media.
O pensamento económico único tem procurado difundir a ideia que basta reduzir o défice orçamental para abaixo dos 3%, para que os problemas do crescimento económico em Portugal se resolverão imediatamente pela acção dos "mercados". No entanto, isso não tem qualquer fundamento nem cientifico nem empírico. A redução de 4 pontos percentuais no défice público (passar de 6,8% para 2,8% do PIB), que significa uma redução de 5.600 milhões de euros nas despesas da Administração Pública em apenas 3 anos (2005-2008), só poderá levar à destruição de uma parte importante do sector produtivo nacional e a mais desemprego. A livre actuação dos mercados só tem gerado desigualdades crescentes e a destruição das economias mais frágeis.
O problema de fundo que defrontámos é o de conseguirmos aumentar a taxa de crescimento potencial da economia portuguesa. E conseguir fazê-lo no contexto da crescente concorrência que sofreremos por efeito da globalização e do alargamento da União Europeia. Trata-se de um desafio extremamente exigente. Apesar das transformações de estrutura produtiva que realizámos na última década, com reflexo marcado nas nossas exportações, temos perdido competitividade ao longo desse período. Porque não inovámos o suficiente e porque os custos do trabalho por unidade produzida aumentaram relativamente aos dos nossos parceiros comerciais.

Daniela Filipa da Silva Pires

(doc. da série artigos de análise/opinião)

quinta-feira, dezembro 07, 2006

“Salários têm de cair 20%”

“SALÁRIOS TÊM DE CAIR 20%”
OLIVIER BLANCHARD CONSIDERA QUE O AUMENTO DO SALÁRIO MÍNIMO VAI ATRASAR A RECUPERAÇÃO PORTUGUESA

Desde há duas semanas que procurava um artigo para o meu trabalho de Economia Portuguesa e apesar deste artigo ter sido um dos primeiros que seleccionei e depois deste ter seleccionado muitos outros, nenhum me surpreendeu tão negativamente quanto este.
Acho surpreendente como é possível que alguém minimamente consciente da situação da economia portuguesa possa proferir publicamente tal opinião.
Olivier Blanchard é um economista francês, foi presidente do departamento de economia do Massachusetts Institute of Technology (MIT) e é actualmente professor no MIT.
Recentemente numa entrevista ao Jornal Expresso declarou que a economia portuguesa necessita de uma redução de 20% nos salários nominais para sair rapidamente da crise e que nesse sentido aumentar o salário mínimo é um erro. Na sua opinião, esta é a medida necessária para se resolver a produtividade e descer a taxa de desemprego. Entre outras coisas refere que “o aumento dos custos de trabalho acumulado nos últimos anos implica uma descida de 20% nos salários nominais – cerca de metade dos salários reais. Parece uma coisa terrível mas, na ausência de um milagre na produtividade, não há outra solução.”
Na minha opinião é uma medida terrível e discordo que seja a única solução.
Por coincidência na semana seguinte à publicação deste artigo vi uma entrevista na SIC ao Presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, a referir que Portugal não deve apostar na diminuição dos salários, mas sim na qualidade, na inovação e na investigação, por exemplo. Opinião esta que concordo e que me permite reforçar com mais convicção a opinião que já tinha em relação a este artigo.
Na minha opinião, a nossa produtividade encontra-se em níveis muito baixos principalmente devido ao pessimismo que se instalou no nosso país. O que os portugueses precisam é de um incentivo forte e um sinal por parte do Governo de que os esforços que têm feito nos últimos anos estão a permitir a retoma da nossa economia. Se o Governo adoptasse esta medida, de reduzir 20% os salários nominais, acredito que os portugueses entravam em “depressão” e o nosso país em “recessão”!
É certo que há outros países com mão-de-obra mais barata e talvez mais qualificada, mas não é menos verdade que temos pessoas com espírito empreendedor, com capacidade para inovar e serem competitivos mas precisam de mais apoio, principalmente do Estado. A nossa aposta entre outras coisas deve ser na inovação dos sectores que estão em crise mas que ainda possam ser rentáveis, nos sectores emergentes dando-lhes mais visibilidade e oportunidade no mercado e na qualificação/formação da mão-de-obra. Temos tudo para termos melhores condições, o Governo precisa de ser justo e coerente nas suas decisões, os portugueses têm de mudar a sua mentalidade porque já não há empregos para toda a vida e a forma de se marcar a diferença é apostar na formação pessoal e na produtividade. Mas o mais importante é o aumento da fiscalização porque se todos cumprissem com as suas obrigações seria o suficiente para Portugal sair da crise.
Um outro aspecto a ter em consideração é que Portugal faz parte da União Europeia e tem objectivos a cumprir e uma posição a defender. A cinco de Dezembro de 2006 o Governo chegou a um acordo com os sindicatos e as entidades patronais relativamente ao Salário Mínimo Nacional (SMN) do próximo ano que será de 403€, em 2009 prevê-se atingir os 450€ e em 2011 os 500€. A nossa vizinha Espanha tem actualmente um SMN de 540,80€, a Grécia de 572,50€. Dentro da Europa dos quinze somos o país com o SMN mais baixo e na Europa dos vinte e cinco somos ultrapassados pela Eslovénia e por Malta que têm um SMN superior a 500€. O SMN mais baixo na Europa dos vinte e cinco é na Letónia e não chega aos 130€. Não faz qualquer sentido a sugestão do economista Olivier Blanchard porque num país como o nosso onde em cinco milhões de pessoas, trezentas mil recebem o SMN, a diminuição do salário nominal em 20% ou até mesmo o não aumento do SMN a ter de ser usado só mesmo em último recurso (o ideal seria não ser considerada solução), pois só contribuiria para uma maior perda do poder de compra e acentuaria ainda mais as desigualdades sociais.


Carla Almeida

(doc. da série artigos de análise/opinião)

Estamos prontos para a revolução de Bolonha?

Pode dizer-se que é curta a experiência de montar e liderar um grupo de trabalho virado para a construção de análises e explicações, e, não é grande a prática de ensino com total disponibilização de tempo do professor, a todo o momento, para se encontrar com o grupo e discutir ensinando, mas também, conjuntamente descobrindo. E é isso que se impõe com o processo de Bolonha.
Isto leva-me a pensar, que a adopção do Processo de Bolonha, com todos os méritos que arrasta, sem dúvida, e acreditando na motivação geralmente apresentada para a sua generalização na União Europeia, a maior facilidade de intercomunicação e de transferência de competências entre estados membros, talvez careça de uma preparação intelectual de uma boa parte das elites universitárias e, sem dúvida alguma, uma aprendizagem dos docentes "viciados" no sistema clássico.
São muitas as questões que se levantam neste tipo de preocupação e que o nosso sistema de ensino deixa a descoberto.
Uma delas diz respeito à consagração do modelo de aulas tuteladas, onde a forma pedagógica de actuar é bastante diferente da forma clássica da aula teórica, mas também da aula prática. O professor integra-se num grupo de trabalho e com ele, liderando-o e coordenando as suas tarefas e a sua interacção, vai acompanhando o grupo, até à produção de um produto final. E tudo isso está interligado com uma nova forma de classificar o aluno, sendo a classificação permanente e baseada, muito mais do que até agora, no contacto com o aluno, observando a sua performance e a sua atitude perante a questão de descobrir respostas e soluções para os problemas que lhe vão surgindo. O papel e a responsabilidade do professor aumentam significativamente neste contexto.
Talvez mais impressionante, é a alteração exigida na mentalidade e na percepção dos alunos quanto às matérias que lhes cabe estudar. A clássica observação "o professor não deu esta matéria", observação que se exaltava não poderá ser invocada. A matéria, tal como até aqui, será objecto de um programa aprovado e publicamente conhecido. Mas não há fronteiras estritas no que toca ao âmbito de cada tema que tal programa enuncie. Poderá mesmo imaginar-se que, em muitos casos haverá uma negociação tácita sobre os limites de âmbito de cada tema. O que tal implica é que o diálogo entre professor e aluno será muito superior ao actual. O professor lança temas como desafio aos alunos, em pequenos grupos e, com eles, investigando bibliograficamente, via Internet ou em fontes de todo o tipo, procura chegar a conclusões e portanto a autênticas "pequenas teses" sobre os temas objecto do desafio.
Daqui resulta as indeclináveis perguntas. Será que os nossos professores estão preparados para este tipo ou esta nova forma de ensinar? Será que temos tudo preparado para um programa de treino e aprendizagem dos próprios professores universitários mais clássicos, para este tipo de actuação?
Esta é apenas a ponta de um icebergue que terá por baixo de si questões ainda mais preocupantes, como sejam: o que significa uma licenciatura de três anos e que relação têm com os antigos bacharelatos? Que ligação têm os mestrados previstos com as licenciaturas enunciadas? Como vai o mercado reagir no que toca à procura de licenciados e de mestres? Será que o doutoramento é, não apenas um grau e uma fase da carreira docente, mas também, visto pelo mercado, uma graduação suplementar e desejável ou mesmo pagável de um licenciado ou mestre que se pretende mais competente e portanto distinguido pela procura do mercado como tal?

Bernadette Cunha

(doc. da série artigos de análise/opinião)

terça-feira, dezembro 05, 2006

O endividamento das famílias portuguesas

Sem dúvidas que o endividamento dos portugueses tem vindo a aumentar, acompanhando uma mudança de hábitos de consumo reflectindo uma alteração de comportamentos culturais e sociais. Também face a uma campanha tão apelativa e extremamente agressiva por parte das instituições de crédito “spread 0%” (por exemplo, no caso do crédito habitação), as famílias portuguesas acabam por se sentirem muito atraídas a consumir sem ter recursos para tal.
Contudo, não podemos ver o recurso ao crédito como um aspecto negativos dado que, quando realizado com moderação ele traz benefícios aos consumidores permitindo-lhes satisfazer necessidades presentes pela antecipação e utilização de recursos futuros. Por este motivo, o que eu acho que deva preocupar os portugueses não é o endividamento em si mas o modo como estes se endividam e a susceptibilidade de este endividamento se transformar em endividamento excessivo.
Sobre este ponto a realidade portuguesa exige que façamos uma reflexão e distingamos os casos de endividamento excessivo provocado por uma quebra do rendimento do consumidor (que pode ocorrer pela alteração da sua circunstância de vida), e o endividamento excessivo que acontece pela mera negligência do consumidor.
Esta situação muitas vezes está em virtude da utilização dos cartões de crédito, pois, grande parte dos consumidores não têm apenas dois empréstimos, o do carro e o da habitação, mas seis ou sete em simultâneo.
Para concluir é de referir que dados da Comissão Europeia revelam mesmo que a divida das famílias portuguesas poderá representar 70 ou 80 por cento do PIB, sendo realmente um valor altíssimo para o nível de rendimento das famílias portuguesas.

Raquel Oliveira

(doc. da série artigos de análise/opinião)

Saúde Pública vs Saúde Privada

Actualmente o sector da saúde em Portugal está a convergir para uma vertente cada vez mais privada, com 30% da população coberta por seguros de saúde, o que faz oscilar a acreditação no Sistema Nacional de Saúde (SNS) e leva também a investimentos de grandes grupos neste sector.
Esta reviravolta no sector da saúde leva a um sistema em que não interessa quem presta o serviço, se o privado ou o público, mas sim quem garante qualidade a baixo preço, devendo este novo sistema assentar na liberdade de escolha por parte dos utentes.
Este novo modelo promove assim a concorrência entre prestadores de cuidados de saúde, mas, ao mesmo tempo garante que quem tem maior possibilidade de pagar mais pelos cuidados saúde possa recorrer ao privado, dado que espera menos tempo e deste modo não efectua essa despesa no público, que fica assim mais aliviado para tratar melhor os que lá vão e que efectivamente não podem recorrer ao privado. Esta ideia é sustentada pelo ministro da saúde Correia de Campos. “O aparecimento de unidades privadas não vai prejudicar o sector público. Se as novas instituições, com excelente qualidade física vierem a atrair pessoas do sector público em regime completo, fico encantado da vida. Queremos que o privado seja um sector de qualidade, autónomo, com vida própria.”
Tendo por base a afirmação do ministro o surgimento de novas instituições fornecedoras de cuidados de saúde com “excelente qualidade física”, provenientes de investimentos de grupos como é o caso do Espírito Santo Saúde, geram um melhoramento no sector da saúde dado que visam a eficiência máxima, sustentada pela contratação de excelentes profissionais de saúde conjugada com sistemas de alta tecnologia. É o caso da nova unidade de saúde de Lisboa denominada Hospital da Luz com abertura prevista para 2007, que garante o uso de alta tecnologia na interacção médico-paciente como é o caso do desaparecimento do papel, sendo este substituído
pelo formato digital (as radiografias serão entregues em cd), os clínicos irão dispor de PDA’s que emitirão avisos sonoros se o doente não receber a medicação à hora marcada, e os doentes poderão dispor de um cockpit com televisão e Internet que permite encomendar o jornal ou escolher o jantar.
Poderá desta forma haver cooperação entre estes dois sectores, público e privado?
Do meu ponto de vista a cooperação é desejável mas não fácil de atingir.
A cooperação poderia traduzir um melhoramento do sistema com vista à melhor satisfação do utente, servindo o sistema privado como bloqueador das lacunas do SNS, actuando deste modo nos campos em que este apresenta limitações.
Este objectivo poderá ser conseguido devido à mudança que o sector privado tem registado, anteriormente a saúde privada apenas se baseava em tratamentos rápidos e baratos, mas actualmente também se direcciona para os mais “desejados” como os tratamentos de doenças oncológicas.

Sara Vilaça

(doc. da série artigos de análise/opinião)

sábado, dezembro 02, 2006

O sistema nacional de saúde

O sistema nacional de saúde é constituído pelo sector privado e pelo público, o denominado Serviço Nacional de Saúde. O sector da saúde é muito sensível, mas é interessante pela dificuldade subjacente ao seu trabalho. Existem muitas coisas boas na saúde, mas as negativas são mais fortes, e desta forma, é preciso trabalha-las.
Existe muita informação disponível neste âmbito, muitos estudos e muitas divergências, mas o grande problema é que pouso se tem feito, nos últimos tempos no caminho da mudança.
É necessário, um sentir dos órgãos de decisão, de que a saúde é muito mais que consultas médicas e tratamentos: é um investir na área da educação para a saúde, na aquisição de hábitos de vida saudáveis, etc. Os decisores de políticas de saúde estão muito pouco formados e não estão integrados dentro das necessidades do próprio sistema, não monetariamente mas de eficácia.
Desta forma, é urgente mudar mentalidades, mudar formas de estar, é preciso que se continuem a fazer estudos concretos e se apliquem, impossível, se continuar a haver administrações que variem por cada vez que mude o partido político, e não sejam meras estatísticas.

Clara Rosa

(resumo de relatório a apresentar na aula de 2ª feira, 06/12/04)

Destaques noticiosos do fim-de-semana

BCE sobe os juros para máximo de cinco anos na quinta-feira [http://www.jornaldenegocios.pt/default.asp?SqlPage=Content_Economia&CpContentId=286772] (02-12-06, in Jornal de Negócios)
«Na última reunião antes do Natal, o Banco Central Europeu não tem a “prenda” mais indicada para dar aos europeus. É que o mercado dá como certa uma nova subida de 25 pontos base nas taxas de juro da Zona Euro, um movimento que colocará o preço do dinheiro no nível mais elevado desde Novembro de 2001.»
/...
Euro atinge máximo desde Março de 2005 com abrandamento nos EUA [http://www.jornaldenegocios.pt/default.asp?SqlPage=Content_Mercados&CpContentId=286773] (01-12-06, in Jornal de Negócios)
«O euro atingiu hoje um novo máximo face ao dólar, acima dos 1,33 dólares, depois de ter sido revelado mais um indicador económico que confirma o abrandamento na maior economia do mundo.»

quinta-feira, novembro 30, 2006

IDE em Portugal

Portugal está mais atractivo ao investimento directo estrangeiro (IDE) segundo o relatório da Ernst & Young, intitulado “Portugal: Cause for optimism”.
Apesar de no período de 2004 e 2005 ter-se registado uma significativa queda de 22% no número de projectos de investimentos estrangeiros, ainda existem motivos para nos mantermos optimistas.
A economia portuguesa tornou-se mais atractiva para investimentos de capital internacional, em 2005, comparativamente ao período homólogo.
Esta melhoria de percepção dos investidores internacionais reflecte a evolução positiva de todos os critérios considerados pontos fortes da economia, de onde se incluem o facto de Portugal ser um país da zona euro, o ambiente social ser estável, existir uma boa qualidade de vida e fortes capacidades linguísticas da força laboral portuguesa, o custo de mão-de-obra ser acessível e haver um o potencial aumento de produtividade. Mas como nada é perfeito, existem também factores negativos que tendem a “afugentar” os investidores estrangeiros. O facto da nossa Administração Pública ainda continuar a ser ineficiente, o elevado nível de tributação sobre as empresas (IVA a 21%), a demasiada burocracia para abrir um negócio, a complexidade da legislação fiscal, são elementos que continuam a prejudicar a imagem de Portugal no estrangeiro e têm fortes impactos negativos no IDE deixando o nosso país muito aquém de outros países da união europeia como a Espanha, Alemanha, França. Outro factor que menos atrai os investimentos de empresários estrangeiros é a ausência de Investigação & Desenvolvimento, especialmente em relação a quadros com estas qualificações. A economia portuguesa poderia ser mais atractiva se o nosso governo remediasse estes pontos negativos e oferecesse mais incentivos económicos às empresas estrangeiras para que estas se localizassem no nosso território, criando assim mais postos de trabalho.
É sabido que é no sector automóvel que os investidores estrangeiros mais investem, mas este sector está com problemas graves, vejamos os casos da Opel da Azambuja e da Jonhson Controls, duas multinacionais que encerram as suas portas em Portugal entre este ano e o próximo, lançando milhares de pessoas para o desemprego, aumentando desta forma os índices de desemprego português e piorando ainda mais a frágil situação da segurança social. Por isso, seria talvez melhor virar-se para o sector dos serviços (sector terciário), sector esse que tem vindo a tornar-se cada vez mais relevante na economia europeia.
Aumentar o IDE é uma tarefa a ser executada a médio prazo, mas as medidas que o Governo tem tomado levam os investidores a concluir que Portugal está no bom caminho. Podendo já antever um sinal de retoma da economia portuguesa.

Patrícia Silva

(doc. da série artigos de análise/opinião)

terça-feira, novembro 28, 2006

A urgência de internacionalizar

Não restam dúvidas que a estrutura económica, o tecido empresarial, a localização periférica e a qualidade dos recursos humanos conferem à economia portuguesa uma situação de fragilidade que limitam a competitividade e a inserção internacional comparativamente ao padrão europeu e ao resto do mundo.
A estagnação e mesmo o retrocesso económico que se está a verificar em Portugal, determinado pela perda crescente de competitividade da economia portuguesa, faz com que esta esteja a perder quota de mercado quer no estrangeiro quer dento do próprio país.
Ora, perante isto, as empresas portuguesas devem encontrar a forma de posicionamento estratégico mais adequado face à natureza das suas vantagens competitivas, à sua dimensão e à sua cultura organizacional no sentido de enverter estes resultados.
A situação em que o país se encontra, exige um crescimento económico mais acelerado e o mais qualificado possível, o que significa investimento, inovação e internacionalização.
A realidade é que ainda se regista, no nosso país, passividade e inexperiência por parte das empresas nacionais e, opções tímidas de internacionalização, o que torna necessário uma dinâmica de empreendedorismo e de criação de empresas, sobretudo as de base tecnológica, capaz de rejuvenescer a estrutura empresarial e qualificar o crescimento da economia.

O processo de internacionalização das empresas refere-se à forma como estas se organizam internamente ou com outras empresas para acederem a mercados externos. Iniciando-se normalmente pela via das exportações, as empresas acabam por avançar para fases mais avançadas em que trabalham com locais, licenciam tecnologia ou avançam para investimentos directos no exterior, sozinhas ou através de alianças estratégicas.

Tal como o Presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, afirmou “é dramaticamente urgente que as empresas portuguesas comprendam que só com o mercado nacional não vão lá”, e que por isso é fundamental internacionalizar.
Em acréscimo, o Presitente da República, Cavaco Silva, à chegada ao Conselho para a Globalização, (uma iniciativa que reúne alguns dos maiores empresários portugueses e mundiais) afirmou que "Portugal enfrenta um grande desafio, que é o da competitividade à escala global. É preciso que as empresas portuguesas se habituem a este novo quadro procurando novos mercados, produzindo com maior componente tecnológica, procurando mercados mais dinâmicos", e alertou ainda para a urgência de empresários, políticos, sindicatos, investidores e "sociedade em geral" começarem a "pensar global e agir global" para Portugal não "ficar para trás" num mundo globalizado.

De facto, Portugal é um país pequeno e por isso só com a internacionalização é que tem verdadeiro futuro.
As principais motivações, ou razões, para internacionalizar, estão relacionadas com a procura de novos mercados; o acesso a factores de produção mais baratos; o aumento das economias de escala; a busca de conhecimentos/aprendizagem; e a busca de um posicionamento mais competitivo; assim como outras vantagens resultantes do facto de operar em vários mercados.

Torna-se, então, importante criar condições que facilitem e apoiem empreendedores e empresários que sigam objectivos estratégicos de transformar conhecimento em ideias de negócio, de criar, de crescer, de inovar, de internacionalizar e de criar empregos.
Deste modo, minimizar as dificuldades com que se defrontam as empresas portuguesas, principalmente as PME´s, perante os desafios da competitividade num mundo cada vez mais gobal, ao mesmo tempo que cria um ambiente estimulante ao empreendedorismo e à eficiência empresarial, deve assumir um papel de prioridade para política económica.

Maria João Veloso
(doc. da série artigos de análise/opinião)

O MERCADO DE TRABALHO É UM DOS MAIORES PROBLEMAS DA ECONOMIA PORTUGUESA

Portugal apresenta algumas divergências económicas em relação à União Europeia, que resultam essencialmente do mercado de trabalho. Segundo o relatório anual da Comissão Europeia, “The EU Economy 2006 Review”, Portugal é o país com os salários mais rígidos, ou seja, os salários apresentam pouca sensibilidade relativamente às oscilações do ciclo económico, e assim não permitem o ajustamento em momentos de crise.
Um dos principais problemas da economia portuguesa é o facto do crescimento dos salários ser superior ao crescimento da produtividade, comparando com os restantes países da União Europeia. Desta forma, os custos de produção dos produtos portugueses tornam-se mais elevados, o que se irá reflectir nos preços das exportações, e portanto, a economia portuguesa perde competitividade relativamente aos seus parceiros económicos europeus os quais absorvem grande parte das nossas exportações. Este cenário tem como consequência o desemprego e por vezes a falência de várias empresas. Em períodos de recessão a procura doméstica diminui e a solução é escoar os nossos produtos através do mercado externo, no entanto, as empresas portuguesas não são suficientemente competitivas para alcançar poder de mercado, e assim a situação da economia portuguesa deteriora-se ainda mais. Segundo o economista francês Olivier Blanchard, “os salários nominais deveriam cair 20% em Portugal para a economia re
cuperar rapidamente”. No entanto, nenhum agente económico aceitaria serenamente a diminuição dos salários nominais, já que isto significaria uma diminuição do poder de compra. Por outro lado, o crescimento dos salários verificado em Portugal provoca o aumento da inflação, diminuindo ainda mais o nosso poder de compra e, consequentemente, a procura doméstica.
Na minha opinião, a solução para a economia portuguesa será por em prática politicas que visem o aumento da produtividade, pois só assim se poderá tornar mais competitiva. Já o crescimento dos salários deverá ser proporcional ao crescimento da produtividade, dado que só um aumento da produtividade poderá suportar salários mais elevados.


MARISA SILVA
(doc. da série artigos de análise/opinião)

Eficiência e eficácia

A eficiência e a eficácia são dois conceitos sobre os quais todos temos uma pequena noção, no entanto, talvez não nos tenhamos apercebido da relevância destes nas acções dos agentes económicos: famílias, empresas e o estado.
Enquanto a eficiência diz respeito a “fazer certa a coisa”, tem, portanto a ver com os imputs e outputs que sendo bens escassos é preciso utilizar da melhor maneira. Eu serei eficiente se conseguir aumentar a produção sem aumentar os imputs e, do mesmo modo, se mantiver o output diminuindo o imput.
Por seu lado, a eficácia refere-se “fazer a coisa certa”, tem portanto a ver com os objectivos da organização, os fins a que se propõe. Estes dois conceitos estão interrelacionados, no entanto, podemos ser eficazes sem ser eficientes, já que para atingir um fim podemos recorrer a meios mais ou menos eficientes. Note-se que é mais fácil ser eficaz se não nos preocuparmos com os meios, isto é, com a gestão eficiente dos recursos. Por exemplo, sendo o objectivo da organização a maximização do lucro este fim pode ser atingido tendo em conta a minimização da poluição ou não.
Deste modo, será que podemos dizer que “os fins justificam os meios”? Isso depende do significado que atribuímos à expressão. Se é verdade que para atingir os objectivos da organização, sejam eles da maximização do lucro ou do bem-estar do consumidor, são imprescindíveis os meios; não é menos verdade que podemos aumentar os lucros sem descorar de dois conceitos que são relevantes no ambiente económico actual e que estão sempre em construção: a RESPONSABILIDADE SOCIAL e a SUSTENTABILIDADE.
Ora porquê falar dos conceitos de eficácia e eficiência no contexto da economia portuguesa? Será que as empresas portuguesas não continuam a estar orientadas para o objectivo tradicional da maximização do lucro esquecendo que hoje em dia terão também de ter um compromisso de responsabilidade social e sustentabilidade? Na minha opinião muito há a fazer neste sentido e é trivial que quer o governo quer o sector particular sigam a eficácia e a eficiência como metodologia de acção.

Fátima Couto

(doc. da série artigos de análise/opinião)

Reforma do Estado

Os cortes na função pública quer em termos de despesas quer em termos de efectivos irão se dar principalmente nos sectores da educação e da saúde, dado o peso excessivo destes sectores. Dar-se-á nomeadamente no pessoal administrativo e nos auxiliares de acção médica e educação, devido a sua grande dimensão e baixa qualificação.
Os administrativos e os auxiliares somam 24,5% do total de funcionários do Estado. Os auxiliares representam 15,8% do volume de efectivos, sendo que estão praticamente todos (80%) concentrados na Educação, Ensino Superior e Saúde.
O relatório que servirá de base à anunciada reforma da Administração Pública, intitulado "Vínculos, carreiras e remunerações na administração pública" altera as regras que definem o emprego publico e sugere uma aproximação, em todos os domínios, ao modelo de emprego privado e ao contrato individual "como forma de vínculo típico". Os responsáveis por este relatório são contra os aumentos salariais automáticos – "que tornam o emprego público pouco atractivo para quem gosta de desafios e de mudanças" – e a favor da "introdução de critérios de avaliação de desempenho na determinação das remunerações" e das "promoções". E também são contra o actual regime devido ao aparecimento de distorções salariais graves, sem qualquer fundamento técnico.
Outras das recomendações que estão neste relatório é relativamente ao recrutamento pois actualmente depende excessivamente das habilitações académicas e do saber retórico, que não vão em conta às necessidades específicas do serviço sendo uma das medidas avançadas no documento para fazer face às deficiências nas contratações é "a possibilidade de atribuir as operações de recrutamento a entidades especializadas".
Será ideal a função pública se aproximar à da privada?
O relatório sugere, contudo, que se bloqueie "eficazmente" o crescimento do número de funcionários, de forma a conter-se o aumento das despesas com pessoal verificado nos últimos dez anos, face à média da União Europeia.

Damiana Santos

(doc. da série artigos de análise/opinião)

segunda-feira, novembro 27, 2006

Miopia Económica

As decisões de investimento das empresas estrangeiras em Portugal, são anunciadas com especial destaque por parte de todos os órgãos de comunicação social e do governo.
Invariavelmente, o montante do investimento, o horizonte temporal da sua concretização, a localização, o número de postos de trabalho a criar directa e indirectamente, são indicadores usados para realçar a bondade de tais investimentos.
Os efeitos positivos são fortemente realçados, contrastando com ausência de referência aos efeitos negativos (impacto ambiental, presente e futuro que estes investimentos causarão), o que revela uma avaliação desproporcional destas decisões de investimento, que deveriam ser realizadas com base numa análise custo / benefício rigorosa.
A Ikea e a Agni Energy Sdn Bhd, são dois bons exemplos, da fragilidade e visão míope da avaliação económica baseada apenas no acréscimo de postos de trabalho e de capital.
Mais importante do que saber o montante total do investimento a efectuar, e acréscimo na oferta de emprego, importa conhecer o papel estratégico que a empresa-mãe destina a estas subsidiárias a instalar em Portugal. Esta informação, permite medir o grau de mobilidade desses investimentos e o seu efeito a médio e longo prazo na economia portuguesa.
A reduzida dimensão do nosso mercado conjugada com a preocupação em evidenciar o volume de produção destinado aos mercados esternos, permite antecipar que estas subsidiárias não serrão replicas em miniatura da empresa-mãe desenvolvendo todas as actividades de valor acrescentado, mas á escala adequada do nosso mercado, nem realizem á escala local um número reduzido de actividades.
È inegável, que a orientação exportadora potencia ganhos económicos para Portugal, permitindo o crescimento do seu PIB, a médio e longo prazo. Contudo, também implica um maior grau de mobilidade destes investimentos. A motivação para a realização destes investimentos, está nas vantagens comparativas que Portugal oferece, em termos de custos de produção e de distribuição, no entanto á medida que estas forem diminuindo, estas empresas estrangeiras equacionarão a deslocalização das suas unidades produtivas. Face a este problema, só resta uma alternativa, atrair investimentos de empresas estrangeiras de tecnologias de ponta, inovadoras e competitivas, em detrimento de investimentos por parte de empresas estrangeiras especializadas em actividades que utilizam intensivamente trabalhadores indiferenciados, que a qualquer momento podem vir a deslocalizar a sua actividade produtiva para mercados com mão de obra mais barata.
Nos dois exemplos citados anteriormente, ambos os investimentos tem em comum funcionarem com plataformas de exportação para o mercado europeu, mas diferem no número de postos a criar, no tipo de relações que estabelece com os restantes agentes e no grau de diversificação. Apesar do montante do investimento e do número de postos de trabalho a criar ser superior no caso do Ikea, este terá um impacto a médio e longo prazo inferior ao do investimento a efectuar pela Agni.
No caso da Agni, serão estabelecidas parcerias entre a empresa e as universidades, para o recrutamento e desenvolvimento de novas soluções, e a sua empregabilidade será constituída por trabalhadores altamente qualificados. A empesa pretende tornar-se um centro de excelência em investigação e desenvolvimento e não é muito provável a sua deslocalização no futuro, já que esta subsidiária da Agni, será vital para o bom desempenho da empresa-mãe. Esta forte ligação entre a empresa-mãe e a sua subsidiária instalada em Portugal, tenderá a reforçar o papel estratégico do investimento em Portugal, e reduzir a probabilidade de deslocalização e conduzir a ganhos económicos superiores aos inicialmente quantificados.

Susana Vilas Boas

(doc. da série artigos de análise/opinião)

Portugal atrás da Estónia e Malta em 2008

A economia portuguesa tem vindo, ao longo dos últimos anos, a apresentar taxas de crescimento económico que contribuem para um cenário de divergência relativamente à União Europeia, assistindo-se a uma perda de posições de Portugal relativamente ao rendimento per capita para países como a R. Checa, Eslovénia, Grécia e futuramente para a Estónia e Malta.
A taxa de crescimento do PIB da economia portuguesa para o ano de 2006, segundo o Boletim Económico de Outono do Banco de Portugal, será de 1,2%, enquanto que a taxa de crescimento do mesmo indicador para Malta e Estónia será de 2% e 10% respectivamente para o mesmo ano. Com isto, segundo o Jornal Expresso do dia 18 de Novembro de 2006, prevê-se que Malta e Estónia venham a ultrapassar Portugal no ano de 2008, levando a que Portugal se encontre cada vez mais perto da "cauda" da União Europeia.
Segundo ainda o mesmo jornal, "Portugal terá no final deste ano uma riqueza média por habitante em paridade de poderes de compra que representa 64,8% da média dos Quinze da União antes do último alargamento. Isto pressupondo já o crescimento de 1,2% que Bruxelas prevê para este ano. A Eslovénia e a República Checa, mais a frente, apresentam já níveis de 76,8% e 70,5%, respectivamente. Quase a apanhar Portugal estão a Estónia com 58,6% e Malta com 64,4%. Uma distância que será rapidamente percorrida com as maiores taxas de crescimento destes dois países."
Assim, e tendo em conta o futuro alargamento em 2007 (entrada da Bulgária e da Roménia para a União Europeia), Portugal deverá tomar medidas políticas, económicas e sociais no sentido de dinamizar a sua economia de forma a garantir a competitividade a fim de evitar que Portugal se fixe irremediavelmente na "cauda" da União Europeia.

Rui Fernandes

(doc. da série artigos de análise/opinião)

sábado, novembro 25, 2006

O Turismo em Portugal, sector emergente

No caso Português, se calhar estamos a aproveitar pouco as capacidades de que dispomos nesta área, mas sempre se nota um aumento do usufruto das suas potencialidades, prevê-se que as receitas do turismo deverão crescer entre cinco e oito por cento em 2007 face a 2006, com base nos destinos já consolidados e em áreas emergentes como o Porto e região Norte, segundo o Instituto de Turismo de Portugal (ITP), sendo de realçar que este ano as receitas turísticas deverão ultrapassar sete mil milhões de euros, mais 8,2 por cento do que em 2005, enquanto as despesas rondarão os 3 mil milhões, saldo bastante positivo.
Segundo o especialista belga Norbert Vanhove, o Algarve não é suficientemente diferenciado, embora o possa vir a ser, acrescenta que esta região não pode ser uma cópia do Sul de Espanha. Uma das grandes lacunas que este especialista belga enuncia, no caso Português, para poder haver competitividade é a carência no domínio de outras línguas. Norbert Vanhove enuncia dez factores de competitividade (Jornal de Negócios – 22/11/2006) dos quais apenas concordo com quatro, são eles a inovação, o planeamento estratégico, qualidade e acessibilidades e atracções, aos quais acrescentava a diferenciação.
Qualquer que seja a área geográfica envolvida (local, regional ou nacional), os destinos turísticos devem desempenhar um papel activo na melhoria da sua posição de mercado e aumentar os retornos directos como a criação de emprego e indirectos, melhorar a imagem ou qualidade de vida do turismo.
Quase dez anos após a inauguração das primeiras rotas, as companhias aéreas de baixo custo estão a ter um grande impacto no sector do turismo. Em particular, complementam a oferta de transporte das companhias aéreas tradicionais em aeroportos regionais e secundários. Permitem muitas vezes uma extensão da época turística (viagens fora de época), criando novos mercados, em especial a meio da semana.
Segundo Luís Patrão, muito importante "para melhorar as condições de competitividade dos destinos turísticos", o negócio destas companhias aéreas tem sido, na sua opinião, "muito bem desenvolvido". "No Algarve, mais de 50 por cento dos passageiros já chegam em companhias 'low cost', enquanto no Porto e em Lisboa este número mais do que está a duplicar anualmente", salientou.
No conjunto, o turismo e a cultura podem funcionar como catalizadores de desenvolvimento económico, melhorar a atractividade de uma região e a sua competitividade. A cultura, e mais genericamente a economia da criatividade, festivais, eventos, entre outros, imprimem autenticidade e dinamismo a uma região. O turismo, se bem gerido, proporciona efeitos inevitáveis positivos no desenvolvimento cultural.
Daí que aumentar a competitividade dos destinos turísticos é um desafio permanente que envolve todos os agentes públicos e privados do sector do turismo. Os serviços turísticos são, em grande medida, dominados por pequenas e médias empresas (aquelas que organizam o transporte, a estadia, o alojamento) que desempenham um papel crucial no desenvolvimento e competitividade dos destinos turísticos.
Desenvolver estratégias que fomentem o potencial de crescimento e a qualidade do destino turístico e melhorem a sua competitividade a nível internacional é um desafio real, embora seja incerto o retorno dos investimentos.
O reposicionamento do destino turístico a nível internacional depende de uma alquimia complexa que envolve, o desenvolvimento de marcas comerciais a nível internacional, uma maior concentração nas actividades de base e segmentos mais rentáveis, diferenciando o destino turístico dos seus concorrentes em termos de clientes ou produtos e procurando maior flexibilidade.
Para ser competitivo, o turismo requer uma mistura complexa de factores, requer um sector empresarial dinâmico e moderno, em conjunto com o envolvimento efectivo do sector público. Este, tem como principal área de intervenção no turismo proporcionar uma concorrência justa e transmitir transparência máxima a operadores e consumidores, bem como ajudar os destinos a avaliar os seus desempenhos com vista a uma gestão eficaz.
É desejável reforçar a coesão e as ligações entre todas as políticas que influenciem o desenvolvimento do turismo. Do mesmo modo, uma cooperação estreita entre o sector público e privado, talvez, através de parcerias público/privado dinâmicas é a base da adopção de boas estratégias para melhorar a atractividade e a competitividade dos destinos turísticos, pois desempenham um papel fundamental.

Clara Rosa

(doc. da série artigos de análise/opinião)

Destaques noticiosos do fim-de-semana

Comissão Europeia acredita que Portugal vai ultrapassar problemas orçamentais [http://www.publico.clix.pt/Economia/noticia.asp?id=1277426] (22-11-2006, in Público)
«O comissário europeu responsável pelos Assuntos Económicos, Joaquín Almunia, manifestou hoje a sua convicção de que Portugal "vai ultrapassar os problemas orçamentais" e adaptar-se ao funcionamento da zona euro.»
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Euro supera os 1,31 dólares e fixa máximo de mais de um ano e meio [http://www.jornaldenegocios.pt/default.asp?CpContentId=286393] (24-11-06, in Jornal de Negócios)
«A moeda europeia mantinha a tendência de ganhos, tendo já negociado acima dos 1,31 dólares, fixando um novo máximo de mais de um ano e meio.»

sexta-feira, novembro 24, 2006

Portugal foi um dos países da zona euro que menos cresceu economicamente desde a adopção da moeda única

Uma das conclusões que se pode retirar do relatório anual sobre a economia europeia é de que Portugal foi um dos países da zona euro que perderam mais velocidade em termos de crescimento económico desde a adopção da moeda única.
Relativamente á evolução das taxas de crescimento, comparando as médias observadas no período anterior à introdução do euro (1992-98) e as registadas nos anos seguintes (1995-2005), chega-se à conclusão que a economia portuguesa desacelerou de uma taxa de crescimento em torno dos 2,4% para apenas 1,6%. Por detrás deste fenómeno está uma fortíssima quebra no investimento que depois de ter crescido 5,7% na década de 90, retraiu-se 0,7% nos anos subsequentes à introdução do euro. No entanto, é também de realçar o facto da taxa de desemprego ter recuado de 6,2% para 5,4%. Os salários reais passaram a crescer de uma forma consideravelmente mais comedida após a entrada no euro (7,5% que compara com 4,3%). Já no que respeita à inflação a adesão ao euro teve um impacto claramente positivo em Portugal: se em 1992 e 1999 o crescimento médio dos preços andou acima dos 4% entre 1999 e 2005 este baixou para valores inferiores a 3%.

O comissário joaquín Almunia (responsável pelos assuntos económicos) acredita que “com As reformas que estão a ser aplicadas pelo actual governo e com o processo de ajustamento orçamental que está a ser seguido, Portugal pode ultrapassar os problemas que herdou do passado”.

De acordo com dados divulgados pelo INE (24/11/06) a “economia dá sinais de melhoria no 3º trimestre”.
Será que podemos mesmo acreditar numa possível retoma da economia portuguesa?


Fátima Filipa Teixeira Couto

(doc. da série artigos de análise/opinião)

quinta-feira, novembro 23, 2006

Da Formação Económica à Vida Económica

Num desafio de enumeração dos maiores problemas da Economia portuguesa, dava-me conta de começar a listagem pela educação e formação em geral (e respectivos défices), pela administração da justiça e pela justiça social (e respectivos défices), pelo centralismo da administração e pelo desapreço dos valores humanos, culturais e éticos, valores do Desenvolvimento. Claro que me dei também conta de que há problemas de crescimento económico, de desemprego, de produtividade, de competitividade, para citar só alguns.
O crescimento deveria ser enquadrado como objectivo para atingir o Desenvolvimento. O primeiro só faz sentido como instrumento do segundo e nunca deveria ser erigido como objectivo último. O Desenvolvimento tem determinantes económicos, como por exemplo, os recursos para disponibilizar bens e serviços destinados a satisfazer as necessidades básicas da população; mas tem também determinantes não económicos fundamentais como a liberdade e justiça social.
Quanto à produtividade, e, através dela a competitividade, depende da formação, da inserção adequada das tecnologias e do seu domínio, da inovação, do empreendorismo, da administração da justiça, da justiça social, do centralismo, da organização produtiva. Os principais responsáveis da baixa produtividade não são só os trabalhadores em geral ou os trabalhadores indiferenciados, como por vezes parecem fazer querer; são também e principalmente os quadros superiores, os administradores, os economistas, esses sim, responsáveis pela organização da produção e pela procura das “combinações óptimas” dos factores; porque são eles que devem decidir sobre a formação necessária, sobre as tecnologias mais adequadas a convocar, sobre as inovações a inserir, sobre a coesão social a criar, sobre a organização da produção,...
A Economia é pois, e apenas, uma ciência social, que para ser ciência útil deve assumir-se com humildade como ciência instrumental; isto é, como ciência ao serviço do Desenvolvimento.
Quanto à formação em Economia com vista à profissionalização, de que entendo dever destacar como preocupação maior a sólida formação teórica com base comum para a economia e a gestão, com exigências mútuas fundamentais: o economista da “Economia Política” não pode ignorar o essencial do funcionamento da célula fundamental da vida económica que é a empresa; do mesmo modo como o economista da “Economia e Gestão Empresariais” não pode deixar de possuir os conhecimentos essenciais da macroeconomia. A par vem a necessidade de sólida formação instrumental, ao nível designadamente dos métodos quantitativos próprios da Economia e dos métodos matemáticos em geral. Mas não se sobrevalorize a formação instrumental face à formação teórica sólida e à capacidade de enquadramento no “social”; aquilo que se designa por “cultura do Economista” impõe que se vá além do carácter instrumental, a diferenciar assim o Economista do Revisor Oficial de Contas e do Técnico Oficial de Contas, por exemplo.
Quanto ao comportamento deontológico e ético, ele tem de ser cada vez mais assegurado perante a sociedade. Essas garantias e as garantias de formação e de actualização de conhecimentos são certamente as razões mais determinantes da tendência crescente dos empregadores.
Estamos nós, futuros economistas, prontos para superar os desafios da actual economia portuguesa?
Existem várias possibilidades de respostas, mas pelo menos devíamos estar preparados para uma sociedade em mutação, com carências a diversos níveis e que busca a internacionalização e competitividade. Devíamos estar conscienciosos na busca de conhecimento teórico e prático…
Devemos inovar e competir!

Bernadette Cunha

(doc. da série artigos de análise/opinião)