Espaço de debate de temas de Economia Portuguesa e de outros que com esta se relacionam, numa perspectiva de desenvolvimento

quinta-feira, janeiro 29, 2009

Previsões económicas

Ainda vai sobrar dinheiro para 2009? – Parte 1

(título de artigo disponível em Newsletter Portugal Têxtil, de 2009/01/28)

terça-feira, janeiro 27, 2009

A Economia já não é o que era! (2)

1. A minha unidade de investigação (NIPE) mantém a prática de organizar regularmente seminários onde gente da casa ou convidados das mais diversas universidades, portuguesas ou não, têm a oportunidade de fazer breves apresentações dos resultados da investigação que têm em curso e recolher dos comentários aí recebidos uma primeira avaliação da maturidade da reflexão mantida e dos textos que prepararam. Num dos seminário mais recentes esteve um jovem da própria unidade, que é também colaborador do Banco Central Europeu, e que, enquadrando o tema que escolheu, se referiu a um seminário semelhante, ocorrido numa universidade estrangeira de renome, no ano de 2006. O aspecto mais saliente do referido evento foi que o animador da sessão, referindo-se à situação económica e financeira vivida pelos Estados Unidos antecipou a respectiva “falência” a prazo mais ou menos curto. Não é esse, no entanto, o aspecto a que quero referir-me mas, antes, à intervenção crítica feita de seguida por um outro eminente académico presente na sessão, que proclamou a fragilidade da análise de situação que era feita por não se sustentar em qualquer modelo de natureza quantitativa. Na sessão, para apoiar os seus argumentos, o analista não fizera uso de qualquer instrumento econométrico ou afim.
2. O caso que se invoca fez-me lembrar uma conversa que mantive há bastantes anos com o orientador científico da minha tese de doutoramento sobre o que é o método científico, tendo ambos concordado que este não se confundia com a formalização matemática dos modelos económicos, se bem que esta seja amiúde bastante útil, até pela economia de linguagem que permite. Curiosamente, nas provas públicas a que me sujeitei não me libertei de ser criticado por um dos arguentes por usar uma linguagem escrita que fazia apelo a alguma beleza formal (literária), inconveniente por, supostamente, ser pouco própria para ser usada numa tese de Economia. Deduzi que o(a) interpelante considerava que bom economista é aquele que lida com rudeza com as palavras, tratando-as como se de pedregulhos se tratasse. Alternativamente, deveria abdicar de usar palavras e expressar-se alinhando fórmulas matemáticas umas atrás das outras, como vi feito por um colega de Lisboa numa sessão de apresentação de projectos de investigação candidatos a financiamento do organismo público específico existente. Na altura (e talvez ainda hoje), essa era via garantida para assegurar o financiamento do respectivo projecto. Curiosamente, falando-se tanto nos tempos que correm de pertinência da investigação realizada nas Universidades e Institutos Politécnicas, essa dimensão parece continuar ausente ou quase de entre os critérios usados pela FCT (Fundação para a Ciência e a Tecnologia) para decidir dos projectos que entende financiar.
3. A segunda lembrança que o dito caso me trouxe é muito mais recente e leva-me a um texto de opinião que li e vi publicado neste Suplemento na semana precedente, da autoria do meu filho José Pedro Cadima, de 19 anos, e que ele intitulou “Uma Caricatura”. Nesse texto, reporta-se precisamente à crise financeira e económica que atravessamos. Abre-o com a afirmação de que a presente crise lhe faz lembrar o 11 de Setembro. A analogia decorre-lhe de nos meses seguintes aos acontecimentos terroristas terem sido publicitadas várias situações que documentavam várias falhas de informação nas mais diversas agências de segurança Norte-Americanas, quer dizer, todas elas tinham tido algum tipo de pista quanto à existência de planos terroristas mas consideradas isoladamente essas pistas não levavam a lado nenhum e, portanto, não permitiram prevenir os trágicos acontecimentos da data invocada. Similarmente, caricaturando o contexto económico que levou à presente crise, ele propõe o seguinte diálogo entre dois economistas, num encontro no café:
“- Olá Economista! Como te têm estado a correr as coisas?
- Têm estado muito bem, pá! Fizemos mais uns fundos hipotecários de alto risco e os investidores já se atiraram todos a eles!
- Hei! Isso é cá uma sorte! Lá na sucursal, estamos numa enorme encruzilhada. Então, não é que os tipos do crédito de alto risco nos pararam de pagar os empréstimos para a casa?”
- Com os diabos, isso está mesmo mau para os teus lados!
Por fim, abrindo a boca surpreendidos com aquela evidente ligação, um dos dois dizia:
- Espera lá!”
O articulista remata este diálogo ficcionado da seguinte forma: “a verdade é que este tipo de conversa entre dois economistas seria impossível pois, como toda a gente tem conhecimento, dois economistas quando se encontram só falam de futebol”. A ironia e a caricatura são, muitas vezes, a melhor forma de lidar com a realidade.
4. Sem sombra de dúvida que a Economia já não é o que era! Que o digam os analistas encartados e os “Compromisso(s) Portugal” da nossa praça, que ainda não há muitos meses proclamavam as virtudes dos mercados desregulados e reclamavam menos Estado. Que o digam José Sócrates e Fernando Teixeira dos Santos, que ainda há bem poucos meses não viam à sua frente senão o défice do orçamento de Estado, aparte as várias eleições marcadas para o ano de 2009.

J. Cadima Ribeiro
(artigo de opinião publicado na edição de hoje do Suplemento de Economia do Diário do Minho, em coluna regular intitulada "Desde a Gallaecia")
-
Nota: uma primeira versão deste texto foi publicada em 09/01/15 no Jornal de Leiria.

domingo, janeiro 25, 2009

“A arte de tapar o sol com uma peneira”

“Morreu recentemente um professor universitário e economista português por quem nutria simpatia. Não uma simpatia forjada no convívio pessoal ou na afinidade ideológica mas, antes, pelo culto da irreverência e da incomodidade que ele sempre soube manter.
Morreu vítima de atropelamento, não estando confirmado que tenha sido a mando do Prof. Cavaco Silva, seu colega de Faculdade, e alvo preferencial das crónicas de crítica económica que fez publicar durante os últimos anos.
Soube já depois da sua morte que fora militante do PPD, senão mesmo sócio fundador. A confirmar-se essa circunstância mais relevada sai a sua memória num tempo em que na Universidade sobressai o culto do cinzentismo e da mediocridade.
Da derradeira conferência do Prof. Alfredo Sousa a que assisti recordo uma frase que dá bem conta da forma como estava na vida e na política.
Estava-se então em 1993. Haviam-se esgotado os fundos postos ao dispor de Portugal pela Comunidade Europeia no âmbito do Quadro Comunitário de Apoio 1989/93, e o Governo não cessava de publicitar o lançamento de novos programas de apoio a que chamava «pacotes». A dado passo da sua intervenção, o Prof. Alfredo Sousa reportar-se-ia a estas políticas nos termos seguintes: «os pacotes, que como sabem são conjuntos vazios…». A plateia rompeu em riso aberto.
Antes e depois, por múltiplas ocasiões, teve o citado economista oportunidade de reclamar doutras políticas do Prof. Cavaco que, similarmente, não passavam de tentativas de tapar o sol com a peneira, como é uso dizer-se. Terá sido pouco ouvido ou, melhor, pouco lido, o que também não espanta: os jornais têm cada vez menos leitores e o Prof. Cavaco faz questão que se saiba que, pela sua parte, não despende mais de 10 minutos (ou serão cinco?) do seu tempo diário com a leitura da imprensa.
Talvez seja por isso que o Primeiro-Ministro está em via de completar o seu décimo ano à frente do Governo do país. E talvez seja por ter compreendido isso que tem nomeado para o Ministério da Educação quem tem nomeado.
A dúvida maior que me assiste, entretanto, reside em saber se é o mesmo propósito que o move no projectado regresso à Universidade.
Os desígnios de «Deus» são verdadeiramente insondáveis.”

J.C.
(reprodução integral de crónica do autor identificado publicada no jornal Notícias do Minho de 94/12/03, em coluna regular genericamente intitulada “Crónicas de Maldizer”)

sábado, janeiro 24, 2009

terça-feira, janeiro 20, 2009

"Praticamente todos os economistas sabiam que haveria necessidade de introduzir correcções nos mercados"

*
(título de artigo de opinião publicado na edição de hoje do Suplemento de Economia do Diário do Minho, já antes divulgado neste "jornal de parede", na Terça-feira, 6 de Janeiro de 2009)

sábado, janeiro 17, 2009

3rd Meeting of the Portuguese Economic Journal

«Dear all,
Please find attached the call for papers of the 3rd Meeting of the Portuguese Economic Journal. This 3rd Meeting is hosted by the Department of Management and Economics of the University of Madeira and will be held in Funchal in June 26-28, 2009.
We look forward to meeting you in Madeira.
Kind regards,

Corrado Andini
---------------------------
Corrado Andini
Assistant Professor
University of Madeira
9000-390 Funchal
Portugal
Email: andini@uma.pt
Webpage: www.uma.pt/andini»
*
(reprodução integral (com excepção de anexo) de mensagem que me caiu entretanto na caixa de correio electrónico, com a proveniência que se identifica)

sexta-feira, janeiro 16, 2009

A Economia já não é o que era!

1. A minha unidade de investigação (NIPE) mantém a prática de organizar regularmente seminários onde gente da casa ou convidados das mais diversas universidades, portuguesas ou não, têm a oportunidade de fazer breves apresentações dos resultados da investigação que têm em curso e recolher dos comentários aí recebidos uma primeira avaliação da maturidade da reflexão mantida e dos textos que prepararam. No seminário mais recente esteve um jovem da própria unidade, que é também colaborador do Banco Central Europeu, e que, enquadrando o tema que escolheu, se referiu a um seminário semelhante, ocorrido numa universidade estrangeira de renome, no ano de 2006. O aspecto mais saliente do referido evento foi que o animador da sessão, referindo-se à situação económica e financeira vivida pelos Estados Unidos antecipou a respectiva “falência” a prazo mais ou menos curto. Não é esse, no entanto, o aspecto a que quero referir-me mas, antes, à intervenção crítica feita de seguida por um outro eminente académico presente na sessão, que proclamou a fragilidade da análise de situação que era feita por não se sustentar em qualquer modelo de natureza quantitativa. Na sessão, para apoiar os seus argumentos, o analista não fizera uso de qualquer instrumento econométrico ou afim.
2. O caso que se invoca fez-me lembrar uma conversa que mantive há bastantes anos com o orientador científico da minha tese de doutoramento sobre o que é o método científico, tendo ambos concordado que este não se confundia com a formalização matemática dos modelos económicos, se bem que esta seja amiúde bastante útil, até pela economia de linguagem que permite. Curiosamente, nas provas públicas a que me sujeitei não me libertei de ser criticado por um dos arguentes por usar uma linguagem escrita que fazia apelo a alguma beleza formal (literária), inconveniente por, supostamente, ser pouco própria para ser usada numa tese de Economia. Deduzi que o(a) interpelante considerava que bom economista é aquele que lida com rudeza com as palavras, tratando-as como se de pedregulhos se tratasse. Alternativamente, deveria abdicar de usar palavras e expressar-se alinhando fórmulas matemáticas umas atrás das outras, como vi feito por um colega de Lisboa numa sessão de apresentação de projectos de investigação candidatos a financiamento do organismo público específico existente. Na altura (e talvez ainda hoje), essa era via garantida para assegurar o financiamento do respectivo projecto.
3. A segunda lembrança que o dito caso me trouxe é muito mais recente e leva-me a um texto de opinião que li e revi, escrito por um dos meus filhos, José Pedro Cadima, de 19 anos, e que ele intitulou “Uma Caricatura”. Nesse texto, reporta-se precisamente à crise financeira e económica que atravessamos. Abre-o com a afirmação de que a presente crise lhe faz lembrar o 11 de Setembro. A analogia decorre-lhe de nos meses seguintes aos acontecimentos terroristas terem sido publicitadas várias situações que documentavam várias falhas de informação nas mais diversas agências de segurança Norte-Americanas, quer dizer, todas elas tinham tido algum tipo de pista quanto à existência de planos terroristas mas consideradas isoladamente essas pistas não levavam a lado nenhum e, portanto, não permitiram prevenir os trágicos acontecimentos da data invocada. Similarmente, caricaturando o contexto económico que levou à presente crise, ele propõe o seguinte diálogo entre dois economistas, num encontro no café:
“- Olá Economista! Como te têm estado a correr as coisas?
- Têm estado muito bem, pá! Fizemos mais uns fundos hipotecários de alto risco e os investidores já se atiraram todos a eles!
- Hei! Isso é cá uma sorte! Lá na sucursal, estamos numa enorme encruzilhada. Então, não é que os tipos do crédito de alto risco nos pararam de pagar os empréstimos para a casa?”
- Com os diabos, isso está mesmo mau para os teus lados!

Por fim, abrindo a boca surpreendidos com aquela evidente ligação, um dos dois dizia:
- Espera lá!”
O articulista remata este diálogo ficcionado da seguinte forma: “a verdade é que este tipo de conversa entre dois economistas seria impossível pois, como toda a gente tem conhecimento, dois economistas quando se encontram só falam de futebol.”
4. Sem sombra de dúvida que a Economia já não é o que era! Que o digam os analistas encartados e os “Compromissos Portugal” da nossa praça, que ainda não há muitos meses proclamavam as virtudes dos mercados desregulados e reclamavam menos Estado. Que o digam José Sócrates e Fernando Teixeira dos Santos, que ainda há bem poucos meses não viam à sua frente senão o défice do orçamento de Estado, aparte as várias eleições marcadas para o ano de 2009.
J. Cadima Ribeiro

(artigo de opinião publicado na edição de ontem do Jornal de Leiria)

quarta-feira, janeiro 14, 2009

Contratos públicos por ajuste directo

"[...] o meu colega da Universidade do Minho, Miguel Portela, fez uma análise dos dados que constavam no sítio de internet à data de 8 de Janeiro. Retirou as seguintes conclusões: entre 30 de Julho (data da entrada em vigor do Código dos Contratos Públicos) e 31 de Dezembro de 2008, realizaram-se um total de 16 061 contratos públicos por ajuste directo, relativos a 936 entidades públicas e 6 803 empresas, totalizando 528 082 137,21 euros, com um valor mediano por contrato de aproximadamente 6 666 euros."
Fernando Alexandre

(excerto de mensagem, datada de 12 de Janeiro de 2009 e intitulada Ajuste directo e transparência, disponível em A destreza das dúvidas)
-
Obs: quem quiser explorar a informação a que o texto se refere, pode também fazê-lo, com óbvia comodidade, através do endereço seguinte: http://transparencia-pt.org/)

terça-feira, janeiro 13, 2009

Um mau começo para a economia Espanhola

Os dados económicos publicados nas últimas semanas vieram confirmar a gravidade da crise que afecta a economia mundial. Existe um consenso cada vez mais alargado sobre o possível agravamento da conjuntura nos próximos meses e sobre as dificuldades para recuperar os níveis de actividade anteriores à crise. Os dados dos mercados de trabalho são elucidativos da forte travagem da actividade económica. Nos Estados Unidos o número de desempregados atingiu os onze milhões (3,5 milhões mais que há um ano), representando 7,2% da população activa, na Alemanha o desemprego voltou a aumentar no último mês depois de quase três anos (34 meses) de descidas continuadas e, em Espanha, o total de desempregados ultrapassou os três milhões de trabalhadores (1 milhão mais que no início de 2007), representando 11,5% da população activa.
A situação em Espanha parece mais grave que em outras economias do seu entorno, dado que à crise internacional se junta uma crise de grandes proporções no sector imobiliário. Os dados inter-anuais mais recentes revelam a magnitude da crise, tanto para as famílias como para as empresas. As transacções de habitações caíram 28% e os empréstimos hipotecários sobre habitações diminuíram 34%. As vendas de automóveis experimentaram uma redução homóloga, em Dezembro, de 49%. A quebra no mercado dos veículos comerciais foi ainda maior, ultrapassando os 65%. As vendas internas das empresas diminuíram em Novembro, também em termos homólogos, em 13%, aproximadamente.
A produção industrial experimentou uma quebra, em termos homólogos, superior a 15%. Esta taxa mais do que duplica a correspondente à média dos países da zona euro, o qual revela a gravidade da situação neste sector. Apesar de as quebras serem extensivas à generalidade da indústria, as mais acentuadas registam-se nos sectores de bens de consumo duradouro e intermédio e nos bens de equipamento. Os dados de encomendas indicam que as quebras na produção industrial vão continuar durante os próximos meses. O emprego industrial também tem diminuído (5,5%, em termos homólogos), ainda que menos que a produção, facto pelo qual nos próximos meses pode assistir-se a uma importante vaga de despedimentos na indústria.
O desemprego tem aumentado de forma espectacular ao longo de 2008. Mais de um milhão de trabalhadores perderam o seu emprego ao longo do ano. Esta facilidade para destruir emprego dá razão a quem pensava que a facilidade para criar emprego da economia espanhola nos primeiros anos da década, assentava em fundamentos económicos pouco sólidos. A intensidade do incremento do desemprego tem aumentado à medida que o ano avançava. No último trimestre do ano, o incremento médio mensal tem sido superior às 130.000 pessoas. Se essa tendência se mantiver ao longo de 2009, o desemprego aumentaria em mais de 1,5 milhões de trabalhadores. É bastante provável que o aumento não seja tão acentuado, dado que os dados do último trimestre (tradicionalmente negativo em termos de emprego) não podem ser directamente extrapolados, contudo, um aumento da ordem do milhão de trabalhadores não parece descabido, atingindo-se, nesse caso, os quatro milhões de desempregados.
É provável que o último trimestre de 2008 e o primeiro de 2009 sejam os piores em termos de quebra de actividade. A contracção do PIB continuará a verificar-se até o final do ano, mas o ritmo de abrandamento será menor. No último trimestre de 2009 a descida inter-trimestral do PIB poderá ficar-se pelos 0,5% (algumas previsões apontam para variações positivas). A queda média do PIB no final do ano poderá atingir 1,5%, ultrapassando a previsão de 1%, mantida pelo governo. Em termos de taxa de desemprego as previsões convergem no intervalo 14,5%-15%, enquanto que o governo mantém uma previsão escassamente credível de 12% da população activa.
A evolução da situação económica nos próximos meses estará dominada por um ambiente de incerteza. Apesar da complexidade da situação, a história económica mostra-nos que, como em recessões anteriores, os mecanismos cíclicos da economia e as intervenções de política económica permitiram a recuperação da actividade. Neste sentido, convém ter presente que a rapidez com que se produz a recuperação depende da agilidade e pertinência das políticas económicas propostas pelos governos nacionais. Contudo, a dimensão global desta crise justifica a implementação de políticas de alcance internacional em alguns âmbitos de intervenção.
No caso espanhol, o governo deve promover políticas que se adeqúem às particularidades da crise que enfrenta, nomeadamente, ao colapso do mercado imobiliário e às dificuldades do seu mercado de trabalho para gerar emprego. No curto prazo o governo espanhol deve aperfeiçoar os mecanismos para efectivar a despesa pública geradora de procura de investimento e consumo, dando prioridade aos projectos em função da sua capacidade para gerar emprego com carácter imediato. No longo prazo, deve preocupar-se com alterar o quadro institucional da economia, com a finalidade de aproximar o potencial efectivo de crescimento do seu potencial teórico. Neste sentido, devem ser levadas a cabo as reformas necessárias para transformar o seu modelo de crescimento, actuando sobre os seus factores impulsionadores e reorientando o padrão de especialização da economia.
FRANCISCO CARBALLO-CRUZ
(artigo de opinião publicado na edição de hoje do Suplemento de Economia do Diário do Minho, em coluna regular intitulada "Desde a Gallaecia")

sábado, janeiro 10, 2009

Dez anos do Euro

Revista Autor
Janeiro de 2009 – Nº 1, Ano IX

2009: decisões em tempo de crise
"[...]
Um balanço de dez anos do euro em contexto de crise mundial
Economia
Escrito por Miguel Rocha de Sousa
No dia 1 de Janeiro de 2009 completam-se 10 anos em que se deu a entrada em vigor do Euro. O processo de transição para a União Económica e Monetária (UEM) não foi pacífico, teve as suas turbulências, para além de ter sido longo. Algumas lições poderão ser retiradas do caso português. O desafio do euro, hoje, é o de se impor como primeira moeda mundial, destronando o dólar, e de a própria UE conseguir ter um papel mais activo na resolução da crise mundial.
Leia mais...
[...]
Revista Autor – http://www.revistaautor.com/
Edição Brasileira ISSN 1677-3500
Edição Portuguesa ISSN 1646-8465"
[...]"
-
(excertos de mensagem de correio electrónico entretanto recebida, proveniente de Revista Autor - nl04@revistaautor.com)

terça-feira, janeiro 06, 2009

Uma caricatura

A alguns, a presente crise compara-se ao crash de 1929. A outros, com um sentido mais proporcional, lembra-lhes a crise de 1982. A mim, em especial, e se calhar porque não vivi nenhuma das duas anteriores, lembra-me o 11 de Setembro. Passo a explicar:
Recordar-se-ão das reportagens que apareceram nos meses seguintes aos acontecimentos terroristas e em que se documentavam várias falhas de informação nas mais diversas agências de segurança Norte-Americanas. Acontece que todas tinham algum tipo de pista quanto à existência de terroristas, de planos de atentados, do envolvimento da Al-Qaeda, de dinheiro desconhecido vindo do médio Oriente. Mas como aquelas nunca se juntaram para conversar e comparar indícios, foi impossível prever que uma dúzia de terroristas com ligações à Al-Qaeda tinham tido aulas de pilotagem tendo como objectivo desviar aviões para destruir variados símbolos de poder americanos.
Também nesta crise isso aconteceu. Uma data de fragmentos de informação só fizeram sentido aquando do acontecimento. Praticamente todos os economistas sabiam que haveria necessidade de introduzir correcções nos mercados (alguns apenas sabiam porque alguém lhes tinha dito que tal viria a acontecer), mas as restantes pistas para o efeito da mesma estavam separadas. Havia economistas que entendiam que os níveis de consumo estavam demasiado altos. Havia economistas que não acreditavam na legislação em vigor. Havia outros que perceberam que o sistema financeiro vivia sob um enorme desequilíbrio. E havia quem visse cada vez menos pessoas a pagar as suas prestações de crédito.
No final, antecipar a crise e o seu tamanho provou-se impossível para a generalidade dos economistas. Talvez tudo tivesse sido diferente caso dois economistas com diferentes fragmentos da informação se tivessem encontrado num café. Imaginemo-los a conversar:
“Olá Economista! Como te têm estado a correr as coisas?"
“ Têm estado muito bem, pá! Fizemos mais uns fundos hipotecários de alto risco e os investidores já se atiraram todos a eles!”
“Hei! Isso é cá uma sorte! Lá na sucursal, estamos numa enorme encruzilhada. Então, não é que os tipos do crédito de alto risco nos pararam de pagar os empréstimos para a casa?”
“ Com os diabos, isso está mesmo mau para os teus lados!”
Por fim, abrindo a boca surpreendidos com aquela evidente ligação, um dos dois dizia:
“Espera lá!”

Obviamente, e apesar da caricatura simplista, a verdade é que este tipo de conversa entre dois economistas seria impossível pois, como toda a gente tem conhecimento, dois economistas quando se encontram só falam de futebol.
No entanto, de nenhuma forma os economistas são os únicos culpados nesta situação. Houve enormes falhas por parte de todos os sectores da sociedade, começando por uma sociedade cujo consumismo a levou a um endividamento absurdo, aos bancos que emprestavam o dinheiro dos depositantes sem grande preocupação com o risco que representavam muitos clientes, às instituições financeiras que aglomeravam as hipotecas sob a forma de fundos de capitais que depois eram generosamente classificados por instituições de “rating” globais.
Mas o mais “engraçado” ficou para os investidores. Alguns deles perderam tudo porque não foram capazes de sair à rua para ver as pessoas serem despejadas das casas que haviam adquirido com recurso ao crédito. Outros, contudo, apercebendo-se disso, compraram todo o tipo de seguros para os activos que no futuro iriam destruir o sistema financeiro, fazendo dinheiro à custa da falência das seguradoras que iriam ser salvas pelo dinheiro dos endividados contribuintes.

José Pedro Cadima
(Estudante de Economia da EEG/UMinho)
jpgcadima@gmail.com

sexta-feira, janeiro 02, 2009

O desenvolvimento de Leiria e do país no ano de 2009

Jornal de Leiria
Resposta às questões colocadas pela jornalista Raquel Silva, em 08/12/26

P – Que factos acha que irão marcar o ano de 2009, ao nível do desenvolvimento regional de Leiria, e porquê?
R – O desenvolvimento de Leiria e do país no ano de 2009 será fortemente condicionado pela situação de crise financeira e económica que se vive nesta altura na Europa e no mundo, e que não estará superada num horizonte de curto-prazo. Será igualmente condicionado pela lucidez das políticas públicas que forem prosseguidas, sendo que a indicação que nos vem dos derradeiros anos não permite alimentar grandes expectativas. No essencial, diria, o futuro económico e social de Leiria e do território envolvente resultarão da ousadia e capacidade de iniciativa dos seus agentes, empresas, outros agentes de desenvolvimento e poder político local. A concretização do comboio de alta velocidade é um projecto importante para Leiria, se pensado à luz da criação de um novo sistema, intermodal, de transportes. Entretanto, não deverá haver notícias desse projecto em 2009.

P – Personalidades que acha que irão destacar-se e porquê?
R – O que tem marcado o território “centrado” em Leiria nas décadas mais recentes e a respectiva dinâmica de desenvolvimento têm sido a ausência de liderança e de estratégia, isto é, de uma estratégia para este território claramente enunciada e de alguém que a protagonize dentro e fora da “região”, entidade colectiva ou personalidade. Isto não é contraditório com a exigência de lideranças estritamente locais, que até podem jogar (jogaram, de facto) em sentido contraditório com a situação enunciada.
Não é óbvio que esta realidade se altere substantivamente no decurso de 2009, embora haja esboço de uma tomada de consciência desse problema e estejam a ser dados passos tímidos na direcção certa. Uma reunião ocorrida há dias na sede da ADLEI dá-me indicações nesse sentido.

P – O que seria desejável que acontecesse/o que deveria ser feito para que as coisas melhorassem?
R – Como deixei dito, a resposta parece estar a ser esboçada no seio do “fórum” que é a ADLEI. Não sei é se a Direcção da ADLEI será capaz e quererá tomar o papel difícil que na reunião que invoco lhe foi sugerido que tomasse. Esse papel é o de constituir-se em agitador de uma consciência colectiva do território em que pretende actuar e um animador da comunicação entre os seus principais agentes (agentes culturais, estruturas empresariais, actores políticos, personalidades de diversos quadrantes de intervenção social). É o ponto de partida possível para a criação de uma liderança para este território e de parcerias para o seu desenvolvimento, por contraponto de projectos isolados, porventura bem intencionados, mas que, enquanto tal, serão incapazes de constituir resposta para a afirmação económica, social e política do território em referência. Aliás, é bom que se tenha presente que, no quadro de concorrência entre territórios e respectivas “elites”, o vazio deixado por uns é rapidamente preenchido por outros.

Braga, 28 de Dezembro de 2008

J. Cadima Ribeiro
(entrevista divulgada na edição de hoje do Jornal de Leiria)

terça-feira, dezembro 30, 2008

Afinal os recursos e competências dos territórios contam e o país não vive num mar de rosas

1. Este período que atravessamos é fértil em jantares e convívios, o que sempre constitui oportunidade para conversas e encontros que noutros contextos dificilmente acontecem. Infelizmente, na maior parte dos casos, trata-se de iniciativas únicas no ano, mesmo que o contacto pessoal, não formalizado, seja a forma mais eficaz de trocar informação relevante, de cariz económico, técnico ou outro, e fonte de muitas ideias e oportunidades. A unidade de investigação a que pertenço (NIPE) cumpriu também este ritual, tendo-me permitido, a dado passo, saber que um dos meus colegas investigadores havia recomendado entretanto a alguém a visita a um dos meus “jornais de parede” de economia (http://economiaportuguesa.blogspot.com), vulgo, blogues. Retorqui-lhe, a propósito, que esse meu blogue parecia provocar algum desconforto a alguns outros autores de blogues de Economia, já que, geralmente, não versava os “grandes” temas da política macroeconómica. Antes, pegava na economia portuguesa a partir dos recursos, das competências dos agentes e da dinâmica dos seus territórios (regiões), assumindo que a saúde da economia do país só pode repousar na saúde e no dinamismo dos seus agentes (famílias, empresas, agentes institucionais) e dos seus territórios.
2. Corri pouco risco nesta afirmação, nesta altura, ao contrário que teria sucedido há poucos meses, pois que até o governo de José Sócrates parece ter percebido isso entretanto, como o sugerem as múltiplas visitas de ministros e secretários de Estado ao “país real” que se têm verificado nas derradeiras semanas, e as declarações “de preocupação” com a situação das empresas e dos portugueses que o próprio e vários dos seus colaboradores próximos têm proferido. Curiosamente, o país é o mesmo de há poucas semanas ou meses, sendo que o ministro das finanças do dito governo era tido, por essa altura, como um exemplo de eficácia e competência, por ter reconduzido o défice das contas públicas para valores abaixo dos 3% do PIB. A contrariar essa imagem, emergira quase só a classificação pelo Financial Times de Teixeira dos Santos como um dos piores ministros das finanças da União Europeia, abaixo dos primeiros 15, se não estou enganado. Poderia, obviamente, ser má vontade do mencionado jornal inglês para com os cabelos brancos do “nosso” homem; podia…
3. Falando de territórios e respectivo desempenho, vale a pena deixar aqui a informação que, por encomenda do governo português, a OCDE, produziu não vai para muitos meses um relatório intitulado “Estudos Territoriais da OCDE: Portugal”, editado em português pelo Instituto Financeiro para o Desenvolvimento regional, IP., antiga Direcção-Geral de Desenvolvimento Regional. Surpreendentemente, dada a natureza da entidade responsável pelo estudo, tem bastante informação tratada a nível de unidades estatísticas de nível III (NUTs III), o que permite traçar um retrato bastante fidedigno da realidade do país, o que de maneira nenhuma se consegue usando NUTs II, quer dizer, os territórios de intervenção das chamadas Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional. Pena é que nem todos os dados tenham a actualidade que seria recomendável.
4. Sinal dos tempos, é com interesse e alguma perplexidade que se pode ler nesse relatório algo como o seguinte:
As ambições de Portugal de modernizar a economia nacional estimulando a inovação irão, por conseguinte, exigir políticas que identifiquem os recursos específicos existentes nas diferentes regiões e que facilitem a sua valorização.
Este objectivo torna necessária uma mudança crítica relativamente às orientações anteriormente seguidas pelas políticas aplicadas em Portugal. Até ao recente lançamento de programas emblemáticos […], a política para a inovação esteve, […], ausente ou encontrava-se dissociada da política regional, o que se traduzia em resultados ambivalentes para o desenvolvimento nacional.[…]. Em contraste com o arranque económico favorável noutros países (como a Espanha e a Irlanda) que também eram habitualmente elegíveis para a ajuda especial europeia (Fundo de Coesão), o impasse de Portugal indica que o investimento passado […] não foi suficiente para desencadear uma dinâmica de desenvolvimento endógeno baseada em recursos competitivos
.” (OCDE, 2008, pp. 15/16)
A perplexidade que refiro decorre de ver posta em dúvida a consistência das políticas estruturais conduzidas no âmbito dos Quadros Comunitários I, II e III e o brilhantismo dos seus inspiradores e executores, alguns dos quais ainda andam por aí, sob as luzes da ribalta. E mais me assiste a dúvida sobre a inconsistência que se deduz da política regional mantida que passo a explicitar de seguida: não é verdade que se usava chamar de planos de desenvolvimento regional aos documentos com base nos quais se negociavam, em Bruxelas, os quadros financeiros de apoio (CQAs)?
Não me digam que se andou a vender aos portugueses gato por lebre? Não quero acreditar! Recuso-me a crer na evidência.

J. Cadima Ribeiro

(artigo de opinião publicado na edição de hoje do Suplemento de Economia do Diário do Minho, em coluna regular intitulada "Desde a Gallaecia")

quinta-feira, dezembro 25, 2008

"Permeabilidade de diferentes esferas da vida social à finança"

"Esta permeabilidade de diferentes esferas da vida social à finança, em todas as classes e em todas as idades, activamente promovida pelo Estado, torna a recente crise uma preocupação maior para o nosso país. O aumento do desemprego e consequente estagnação ou mesmo diminuição dos salários, aliada ao sobrendividamento, fazem prever o pior no acesso aos bens e serviços essenciais."
(excerto de mensagem intitulada "A crise e o processo de financeirização em Portugal", datada de 08/12/22, disponível em Ladrões de Bicicletas)

terça-feira, dezembro 23, 2008

"Os espanhóis têm cerca de um terço dos empregadores e empregados com formação de nível superior"

Notícia Diário Digital
Estudo: Espanhóis mais qualificados do que os portugueses:
http://diariodigital.sapo.pt/dinheiro_digital/news.asp?section_id=2&id_news=109394

(cortesia de Nuno Soares da Silva)

O desafio da competitividade...

As últimas décadas têm sido marcadas por profundas mudanças nos sistemas económicos e por um notável avanço no domínio das novas tecnologias que vem lançar um enorme desafio às empresas mais ambiciosas ao enfrentarem um mercado globalmente mais competitivo.
Recentemente, o ministro da Economia, Manuel Pinho, em declarações a uma rádio portuguesa, disse acreditar na competitividade das empresas portuguesas e na capacidade destas enfrentarem a pressão competitiva vinda da vizinha Espanha. “Acredito que as nossas empresas são suficientemente fortes para concorrer e para o fazerem cada vez melhor”, salientou.
É nos períodos de crise que as empresas se deparam com a necessidade de redução de custos e reestruturação do sistema produtivo de forma a fazer face às quebras do consumo. De facto, a actual conjuntura económica nacional e internacional coloca às empresas portuguesas um novo desafio, que deve ser encarado no contexto de competitividade, de concorrência e de definição de vantagens competitivas. Como tal as apostas devem ser construídas de uma forma sólida, com base nos seguintes aspectos:
- Inovação e capacidade de criação de valor;
- Crescimento sustentado da produtividade e na recomposição das actividades, de forma a tirar partido do custo relativo dos factores num mercado de moeda única;
- Exploração dos factores territoriais e definição de estratégias de internacionalização;
- Racionalização dos custos produtivos;
É necessário que as empresas, e o país, sejam capazes de criar uma estrutura interna de inovação. Essa estrutura deve contudo ter como base a criação de cadeias de valor em sectores específicos, que gerem vantagens competitivas. É também necessária a exaustiva exploração das reservas de capital humano e de I&D (investigação e desenvolvimento) que permitam aperfeiçoar processos produtivos, apostar na diferenciação e criar novos produtos com qualidade reconhecida. Contudo, tais medidas têm de estar associadas a uma reestruturação do sistema de financiamento das empresas Portuguesas, reduzindo o acesso ao financiamento externo, de forma a diminuir a vulnerabilidade a choques externos. È também fundamental apelar a uma maior flexibilidade das empresas e das condicionantes políticas da sua actividade, tentando estabelecer uma aproximação aos padrões de governação das democracias ocidentais mais desenvolvidas.
São muitas as reformas necessárias para agilizar o processo produtivo e nos tirarem dos lugares cimeiros no que toca à “incapacidade de criação de valor”, segundo dados divulgados pela OCDE (relatório sobre os níveis de competitividade), que terão necessariamente de ter início com uma aposta na educação, formando uma sociedade prática, consciente, ágil, ambiciosa, eficiente e produtiva!
Paulo Jorge Carvalho
(estudante de Economia da EEG/UMinho)
(artigo de opinião publicado na edição de hoje do Suplemento de Economia do Diário do Minho)

segunda-feira, dezembro 22, 2008

O subfinanciamento das IES

«Nos últimos três anos, as transferências do Estado para as instituições de ensino superior têm vindo a diminuir e já não chegam para cobrir as despesas correntes. Às universidades e politécnicos públicos é-lhes pedido que recorram às receitas próprias para pagar despesas que, até há dois anos, eram da responsabilidade do Estado.
Ano após ano, as instituições queixam-se do subfinanciamento e vão adiando projectos "à espera de melhores dias", conclui-se num inquérito que o PÚBLICO lançou há um mês ao sistema público de ensino superior e a que responderam metade (15 em 30) das instituições.»
(excerto de Notícia PÚBLICO - Última Hora, de hoje, intitulada "Universidades cortam verbas para professores e instalações")
-
[cortesia de Nuno Soares da Silva]

terça-feira, dezembro 16, 2008

A Galiza também abranda

A situação económica na Galiza tem vindo a piorar ao longo do último ano. Os dados mais recentes sobre o nível de actividade, relativos ao terceiro trimestre do ano, confirmam o agravamento da situação. A variação inter-anual do valor acrescentado bruto não agrário nesse trimestre foi de 0.9%, ligeiramente superior à variação de 0.6%, verificada no conjunto de Espanha.
Estima-se que a taxa de crescimento do produto no final do ano apenas venha a ultrapassar o 1%. O abrandamento do ritmo de crescimento do produto advém tanto da fraqueza da procura privada interna como da acentuada quebra das exportações. A primeira, constituída pelo consumo final das famílias e a formação bruta de capital (FBC), está a cair a ritmos progressivamente mais intensos e é bastante provável que a sua taxa de crescimento não exceda o 1% no final do ano.
A componente da procura exterior também revela dados preocupantes. A quebra acumulada das exportações é superior a 8% e a das importações ultrapassa os 7%. Contudo, o dado mais destacado é o relativo à quebra das importações de bens de equipamento, que no que vai de ano se aproxima dos 70%. Este dado evidencia o forte ajustamento do sector produtivo. As empresas, perante expectativas de negócio pouco favoráveis, estão a adiar as suas decisões de investimento, contribuindo para afundar, ainda mais, os níveis de actividade.
O sector da construção civil merece um comentário diferenciado. A queda acumulada de construção de habitações na Galiza é superior a 45%, sendo a da superfície a construir de quase 40% (dados do mês de Maio). O emprego sectorial caiu apenas 6.5%, graças à manutenção dos níveis de investimento público. Neste sentido, convém destacar que o número de concursos públicos no sector caiu unicamente 3.5%, nos oito primeiros meses do ano, devido, entre outras razões, à conjuntura pré-eleitoral derivada da iminente convocatória de eleições para o governo regional.
A situação no mercado de trabalho começa a ser especialmente preocupante. O número de desempregados aumentou nos primeiros três trimestres do ano em quase 11%, e a taxa de desemprego atinge 8.4% da população activa. A conjuntura neste âmbito tem-se agravado seriamente nos últimos meses. Os dados do último mês do terceiro trimestre (Setembro) revelam que a seguir ao verão as empresas, de alguns dos sectores mais importantes em termos de emprego, levaram a cabo processos de ajustamento através de despedimentos acordados ou da não renovação dos contratos a termo. Os jovens menores de 25 anos foram os mais afectados por este ajustamento, dado que o número médio de inscritos na Segurança Social caiu drasticamente após o verão, passando de 87,000 para apenas 77,000.
Um dado que reforça a má situação do mercado de trabalho é o elevado número de Expedientes de Regulação de Emprego (ERE). Este procedimento, regulado por Lei, permite às empresas prescindir temporariamente (e inclusivamente despedir, por extinção do posto de trabalho) dos seus trabalhadores, utilizando como justificação principal a queda de encomendas. Até ao início deste mês, 480 empresas utilizaram esta figura para ajustar o seu volume de emprego. Neste momento, há mais de 7,500 trabalhadores afectados por este tipo de expedientes. Por sectores, os mais prejudicados são os de componentes para automóveis, onde foram apresentados 42 expedientes, alguns deles de centenas de trabalhadores, o das pescas e o têxtil.
O contexto actual caracteriza-se por uma manifesta escassez de procura, a qual é causa e consequência da perda continuada de empregos, por uma dificuldade considerável para financiar o consumo e o investimento, por uma recessão profunda nos mercados externos das empresas e, em definitivo, por uma incerteza crescente, da generalidade dos agentes económicos, relativamente ao futuro. Independentemente das medidas de curto prazo que possam ser postas em prática, esta conjuntura deve obrigar os responsáveis de política a reflectir sobre o modelo de desenvolvimento a longo prazo e, sobretudo, sobre o modelo de governação que deverá vigorar nas próximas décadas.
Na actual conjuntura, as intervenções de curto prazo do governo autonómico neste âmbito terão um alcance muito reduzido. Assim sendo, o governo central é o que tem que apresentar medidas de política económica solventes, que contribuam para estimular a procura privada e substituir parte dela por consumo público, sem esquecer que a actividade económica só voltará a ganhar algum vigor quando as dinâmicas da criação de emprego forem restauradas. As políticas fiscais expansivas que estão a ser propostas nos últimos dias parecem uma boa solução para estimular a economia no curto prazo, mas é nestes momentos quando convém lembrar que, no âmbito produtivo, os recursos públicos devem servir para incrementar a competitividade no longo prazo. Em Espanha isso não foi feito durante os anos de bonança económica. Na Galiza os défices a esse nível foram maiores, e as falhas de orientação comparativamente mais duradouras.
FRANCISCO CARBALLO-CRUZ

(artigo de opinião publicado na edição de hoje do Suplemento de Economia do Diário do Minho, em coluna regular intitulada "Desde a Gallaecia")