Espaço de debate de temas de Economia Portuguesa e de outros que com esta se relacionam, numa perspectiva de desenvolvimento

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quinta-feira, abril 23, 2015

"I Chamada de Artigos - Revista História e Economia"

«Prezados,
 solicitamos sua ajuda na divulgação da chamada de artigos!

Conselho Editorial da Revista  História e Economia

CHAMADA DE ARTIGOS REVISTA HISTÓRIA E ECONOMIA
A Revista interdisciplinar História e Economia é uma publicação semestral impressa do Instituto de História e Economia. A proposta do Conselho, formado por professores da USP, UFF, Unicamp e outras importantes universidades, quando criou o Instituto, foi resgatar e incentivar uma parte da nossa pesquisa pouco privilegiada nos centros acadêmicos, como a História Comparativa, a História Econômica e a História Política. Receberemos artigos até o dia 31 de maio de 2015. Os artigos serão publicados no v. 14, 1 º semestre de 2015.
Os artigos devem ter no mínimo 20 páginas e ser enviados para o e-mail revistahistoriaeconomia@gmail.com
A Revista dedica-se à publicação de trabalhos nas áreas de Economia, História Econômica, História Política e História da África. Publicamos somente textos originais, aceitando em casos especiais, a publicação simultânea em revista estrangeira. Recebemos artigos em português, inglês, espanhol ou francês.
 
Os artigos poderão ser referentes a quaisquer países ou regiões. Todos os artigos serão publicados no idioma em que foram escritos.
Atenciosamente,
Conselho Editorial da Revista História e Economia
Adalton Franciozo Diniz (Faculdade Cásper Líbero/PUC- SP)
André Villela (EPGE/FGV)
Antônio Penalves Rocha (USP)
Carlos Eduardo Carvalho (PUC/SP)
Carlos Gabriel Guimarães (UFF)
Felipe Pereira Loureiro (USP)
Flavio Saes (USP)
Gail Triner (Rutgers University)
Jaime Reis (ICS - Universidade de Lisboa)
John Schulz (BBS)
John K. Thornton (Boston University)
Jonathan B. Wight (University of Richmond)
José Luis Cardoso (ICS – Universidade de Lisboa)
Luiz Felipe de Alencastro (FGV/Sorbonne)
Marcos Cintra (Unicamp)
Pedro Carvalho de Mello (ESALQ)
Renato Leite Marcondes (USP/Ribeirão Preto)
Ricardo Feijó (USP/Ribeirão Preto)
Steven Topik (University of California Irvine)
Vitoria Saddi (INSPER)»

(reprodução de mensagem que me caiu entretanto na caixa de correio eletrónico, proveniente da entidade identificada)

terça-feira, dezembro 11, 2012

Plano Estratégico ´Leiria Região de Excelência`

Fórum Sectorial ´Leiria Região de Excelência`- Eixo Território (2012/12/10)

Plano Estratégico (análise “SWOT”): os meus sublinhados 
Pontos fracos:
i) Tendência de aumento progressivo da taxa de criminalidade; 
 ii) Número de médicos e enfermeiros por mil habitantes inferior à média nacional; 
iii) Percentagem de águas residuais tratadas inferior à média nacional; 
iv) Consumo de combustível automóvel por habitante superior à média nacional; 
v) Duração média dos processos nos tribunais de 1ª instância superior à média da NUT II Centro; 
vi) Tendência decrescente da proporção de alunos no ensino superior em áreas científico-tecnológicas e abaixo da média nacional; 
vii) Proporção de trabalhadores com maiores níveis de escolaridade inferior à média nacional; 
viii) Produtividade aparente do trabalho abaixo da média nacional, observando uma tendência decrescente;
ix) Elevada % de trabalhadores agrícolas com idades iguais ou superiores a 55 anos; 
x) Reduzida taxa de ocupação dos equipamentos hoteleiros (inferior à média nacional); 
xi) Reduzida % de estrangeiros no total de hóspedes (inferior à média nacional); 
xii) Reduzida estadia média dos turistas nos estabelecimentos hoteleiros (inferior à média nacional). 

 J. Cadima Ribeiro

sábado, setembro 01, 2012

segunda-feira, agosto 27, 2012

Notícias ilustradas de outro mundo (11)

(Uberlândia, Minas Gerais, Brasil, Agosto de 2012)

terça-feira, agosto 21, 2012

segunda-feira, agosto 20, 2012

Notícias ilustradas de outro mundo (8)

(Uberlândia, Minas Gerais, Brasil, Agosto de 2012)

terça-feira, agosto 14, 2012

Notícias ilustradas de outro mundo (6)



(Uberlândia, Minas Gerais, Brasil, Agosto de 2012)

sexta-feira, agosto 10, 2012

“A Trilha Perdida”

Tenho comigo um livro sobre a história económica do Brasil (A Trilha Perdida: caminhos e descaminhos do desenvolvimento baiano no século XX) que, como o subtítulo indica, dá uma especial atenção à evolução da realidade regional da Bahia. Foi oferta do seu autor, Noelio Dantaslé Spinola, há mais de um ano, e tem como data de edição o ano de 2009 (Edição da UNIFACS). Aguardava desde então a oportunidade do ler.
A curiosidade que me suscita(va) a economia e a sociedade brasileiras, passadas e presentes, juntamente com a circunstância do seu autor ser coorientador de uma minha doutoranda brasileira incitaram-me nesse sentido. Por contraponto, a falta de tempo, conjugada com a extensão da obra (527 páginas), foram retardando o desencadear dessa leitura. Uma deslocação ao Brasil este Verão, com a conexa multiplicação de horas de voo, propiciou-me a oportunidade de fazê-lo.
Antes de me referir brevemente a alguns elementos de curiosidade que encontrei no livro em referência, quero deixar uma nota sobre o seu autor, cujo percurso académico me suscitou, ele próprio, a atenção.
Nascido na Bahia, em 1941, e doutor em Geografia e História pela Universidade de Barcelona, Noelio Dantaslé Spinola concluiu o seu doutoramento já com mais de 60 anos, sendo na atualidade Professor Titular da UNIFACS, Salvador da Bahia. No prefácio do livro, referindo-se-lhe, o reitor da dita instituição escreveu o seguinte: “O autor […] milita no espírito do grande chamado de Marx para que os intelectuais não procurarem apenas compreender o mundo, mas que se dediquem a transformá-lo (Spinola, 2009, p.23).
Não havendo oportunidade aqui para fazer a recensão propriamente dita do livro, a partir da minha condição de curioso da realidade histórica brasileira e professor de economia regional, avançarei nos parágrafos seguintes alguns notas de leitura que, porventura, irão ao encontro da curiosidade de alguns portugueses e traçarão linhas de “continuidade” entre as realidades portuguesa e brasileira e, quiçá, poderão motivar a leitura do livro.
Como primeiro dado, que desde logo me escapava, quero invocar o evoluir histórico das capitais do Brasil, para sublinhar como antecessoras de Brasília, o Rio de Janeiro e Salvador da Bahia, por ordem inversa do momento histórico em que essas cidades ocuparam essas funções político-administrativas. Este deslizar da capitalidade política não parece ter sido um incidente com marca exclusivamente política. Pelo contrário, como escreve Noelio Spinola logo a abrir o seu livro e sublinha repetidamente ao longo de toda a obra, “No caso específico da Bahia, seu declínio inicia-se com a transferência do Governo  Geral da Bahia para o Rio de Janeiro em 1763, perdendo a província sua condição de capital política do país e todos os ganhos inerentes a essa condição” (Spinola, 2009, p.37). Invocando outro autor brasileiro, acrescenta de seguida que “isto se deveu ao facto do polo de desenvolvimento do Brasil ter saído do Norte/Nordeste, firmando-se no Sudeste (Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo). A descoberta do ouro nas Minas Gerais e, posteriormente, o advento do ciclo do café, plantado inicialmente no Rio de Janeiro e depois em São Paulo, deslocaram o eixo da economia, marginalizando para sempre as províncias do Nordeste e do Norte” (Spinola, 2009, p.37).
A segunda nota vai para a evolução dos padrões monetários no Brasil, em relação com a estranheza da designação atual da moeda brasileira, o Real. Pretendo a-propósito assinalar a falta de continuidade do nome da unidade monetária com as designações das que a antecederam ao longo do século XX: Cruzeiro; Cruzeiro Novo; Cruzado; Cruzado Novo; Cruzeiro; Cruzeiro Novo. Paradoxalmente, face ao que anoto antes e à realidade política republicana brasileira, o antecedente da designação atual remete para os Réis do tempo colonial, que sobreviveram (a moeda, digo) até Outubro de 1942. Aliás, Spinola (2009, p.74) vai mais longe, assinalando que os “RÉIS” se sugerem como “denominação derivada do ´REAL` que era a moeda portuguesa dos séculos XV e XVI, na época do ´descobrimento`”.
Numa terceira e última nota, entendo fazer menção à implementação que se deu a partir de certa altura de um conjunto de iniciativas públicas de planeamento visando impulsionar a transformação da economia brasileira, em geral.
Entre os planos produzidos merece menção o ´Plano de Metas`, ao tempo do governo de Kubitschek. Em resultado dessa ação de planeamento, “de 1956 a 1960, o produto interno bruto (PIB) crescei 8,1% e a renda per capita 5,2% ao ano, em média” (Spinola, 2009, p. 228). Esta atuação do poder público foi pensada, disse, para acelerar o desenvolvimento económico mas, particularmente, a industrialização do Brasil, induzindo o investimento privado, quer nacional quer estrangeiro. Aparte a ênfase na indústria, a fazer lembrar o pensamento prevalecente em Portugal na mesma altura do sector industrial como motor do crescimento económico (“Industrialize-se o país que o resto irá atrás”), é especialmente interessante reter o papel desempenhado por Celso Furtado nesta fase da gestão da economia e do território brasileiro, ele que será, porventura, o economista brasileiro ainda hoje mais conhecido na Europa.
Depois de ter liderado tecnicamente o Codeno (Conselho de Desenvolvimento do Nordeste) e a Sudene, uma agência de desenvolvimento regional de iniciativa central dotada de amplas atribuições em matéria de desenvolvimento territorial, acabou por ser ministro do governo de Goulart. No dizer de Albert Hirschman, citado por Spinola (2009, p.232), a Sudene constituiu-se numa espécie de “ministério do desenvolvimento regional, dotado de excecional força executiva”.
Em razão da inspiração teórica das políticas e dos seus executantes, num comentário/balanço produzido a propósito desta fase da gestão da realidade brasileira, secundando outros autores, Noelio Spinola (2009, p.235) adianta que “Dificilmente se encontraria, na história recente da economia brasileira, uma integração tão estreita entre as estratégias teóricas de ação quanto aquela existente entre o ´Plano Trienal de Desenvolvimento Económico e Social` (Brasil, 1962), o ´II Plano Diretor da Sudene` (Brasil, 1963), ambos referentes ao período 1963-1965, e o estudo do GTDN (Brasil, 1959). Dificilmente, também, se encontraram descompassos maiores entre o que preconizavam aqueles documentos e a evolução da realidade sobre a qual deveriam intervir” (itálico meu).
Esclareça-se que o GTDN (Grupo de Trabalho para o Desenvolvimento do Nordeste) foi uma estrutura criada pelo governo Kubitschek, em 1956, que precedeu o Codeno e a Sudene, e foi responsável pela elaboração de um diagnóstico aprofundado da realidade do território objeto da sua ação e, particularmente, da questão agrária e da problemática originada pela seca que atingiu a região em anos precedentes, e pela proposição de um conjunto de orientações de política tendentes a reorganizar o sector e “a reverter o problema da oferta de alimentos e a absorção do excedente populacional” (Spinola, 2009, p.215).
O livro tem muito mais que se possa comentar, para além de informação abundante que disponibiliza sobre o tecido industrial da Bahia e do Brasil, nomeadamente o número de unidades de produção existentes na Bahia em diversos momentos históricos, com explicitação dos ramos de atividade, volumes de emprego e peso relativo dos diversos sectores de atividade no seu tecido industrial. Para o leitor português, tem o interesse adicional de se poderem encontrar aí dados surpreendentes sobre paralelismos e impasses análogos vividos pelas economias brasileira e portuguesa, entre outras coisas merecedoras de estudo e ponderação. Tem entretanto o inconveniente de ser bastante longo, como assinalei antes, e de multiplicar a apresentação de dados, tabelas e referências bibliográficas que nem sempre facilitam o bom entendimento por parte do leitor, particularmente por parte de alguém não especialista e/ou menos conhecedor da história social, económica e política do Brasil. Nem por isso deixa de ser um documento cuja leitura deixo de recomendar a quem busque melhor conhecer a evolução histórica daquela economia e sociedade. 

J. Cadima Ribeiro

Referência da obra: Spinola, Noelio Dantaslé (2009), A Trilha Perdida: caminhos e descaminhos do desenvolvimento baiano no século XX, Edição UNIFACS, Salvador.

quinta-feira, agosto 09, 2012

quarta-feira, agosto 08, 2012

terça-feira, agosto 07, 2012

segunda-feira, agosto 06, 2012

sábado, dezembro 31, 2011

"ACORDA SOCIEDADE BRASILEIRA ..."

«A distância entre a notícia publicada na mídia e a percepção da sociedade

Tenho certeza que você leu a notícia: “Economia brasileira é a sexta maior do Mundo”. Ou seja, na frente do Brasil os EUA, China, Japão, Alemanha e França; sendo que ganhamos a posição que antes era do Reino Unido. Coisa para encher de orgulho os brasileiros. Ou seja, usando o jargão político da moda, nunca na estória desse país chegamos a tal posição.

O Ministro da Fazenda rapidamente arrematou: em vinte anos os brasileiros poderão ter padrão de vida igual aos dos europeus; só não disse se estava se referindo aos padrões antes da crise por que passa a Europa, ou ao atual padrão. 

Ou seja, o Brasil está à frente do Reino Unido na escala agora apresentada, mas sabe-se que o padrão de vida do brasileiro é bastante inferior a qualidade de vida no Reino Unido. O IDH – índice que mede o desenvolvimento humano das nações – é de 28 para o Reino Unido, enquanto o Brasil é 84, em uma escala que vai até 187 (total de países pesquisados).

Não resta dúvida que para o Governo a notícia foi um “presente de Natal. Mas fica a pergunta: como o povo percebeu (se é que entendeu) este presente?

Olhando em volta – segurança pública, saúde, educação e corrupção – a sociedade não encontra nada que a leve a perceber o significado do “presente de Natal”; pelo contrário, tem tudo para não entender a notícia que circulou em toda a imprensa brasileira e, também, na internacional.

Na área da segurança pública e saúde as evidências são de uma crise crônica e com dificuldade de solução em curto prazo, pois depende de alterações profundas no processo de gestão e, sobretudo, de um profundo choque de moralização de comportamentos. Na educação, o descrédito nos recentes e cíclicos problemas de vazamento de informações nos processos de avaliação dos estudantes. Por último, em relação à corrupção, seis ministros demitidos ligados a cinco partidos da sustentação do Governo.

Frente a toda esta percepção natural do dia-a-dia (percepção do entorno) a sociedade brasileira fica intrigada em imaginar que superamos o Reino Unido na indicação das maiores economias do mundo.

Se levarmos em conta que, no Brasil, 2012 não terá um cenário muito diferente daquele que vivenciamos em 2011, dado que os problemas econômicos dos países europeus e os EUA ainda estão longe de serem considerados como resolvidos, a economia mundial ainda irá depender do desempenho de China e Índia para que o crescimento da economia mundial – do qual o Brasil depende – não sofra uma ação de descontinuidade.

No Brasil, no ano que se inicia, não está totalmente descartada a possibilidade da subida dos juros e da inflação que, poderá ter seus efeitos absorvidos por ações do Governo, mas que se isso não ocorrer no ritmo necessário poderá colocar o país em condições menos favoráveis que àquelas percebidas hoje em um cenário de euforia. Isso tudo tendo como pano de fundo a imprescindível evolução das atividades da indústria nacional.

Resumindo a estória (se é que isso é possível), pode-se dizer que a sociedade não verá os reflexos da nova posição do Brasil, entre as grandes economias do mundo, em um horizonte de curto e médio prazo. Possivelmente poderá sentir tais efeitos em longo prazo, particularmente se – e apenas se - o Governo adotar as posições que precisarão ser tomadas.

Várias conjunturas – algumas independentes da ação do Governo – nos levaram a realidade de estarmos em evidência na economia mundial, entretanto, e isso é inevitável, serão as novas ações do Governo que irão possibilitar que continuemos nessa posição.

Roosevelt S. Fernandes, M. Sc.


[Comentário produzido a propósito da mensagem "Portugal… Política e Economia", publicado há muitos meses no blogue Economia Portuguesa e Europeia]: 

segunda-feira, outubro 03, 2011

Cartas Portuguesas - de Lisboa (VIII)

PARTIDO SOCIALISTA: NOVO CICLO PARA CUMPRIR PORTUGAL? - 11 setembro 2011
[Continua]

Não obstante, Portugal é um pequeno país, com 6% do PIB da União Europeia, mas sem problemas estruturais graves:
• Não tem grandes desertos nem geleiras inacessíveis em seu território, nem muito menos sofre de grandes catástrofes naturais, pelo contrário, é dotado de belezas naturais expressivas que sempre se ofereceram, plácidas, à aristocracia do continente ;
• não tem bolsões de pobreza significativos, numa população pouco superior a dez milhões de almas – nobres - razoavelmente bem distribuídas ao longo do país, tanto em termos de regime de propriedade da terra, como em termos regionais – cada região do país, é mais fascinante do que a outra -, assegurando-se um invejável lugar entre os vinte países com melhor qualidade de vida no mundo inteiro;
• é membro de uma comunidade luso-fônica que corresponde ao quarto idioma mais falado no mundo e um mercado em torno de 250 milhões de consumidores- na qual se destaca um país emergente como Brasil - , toda ela democratizada e sem conflitos de natureza étnica, religiosa ou de intolerância, sobre a qual pontifica como Mãe-Pátria;
• tem ainda uma das melhores e mais irresistíveis gastronomias do mundo, tem azulejos e tem poesia ...

Desculpem-me, portanto, os companheiros do Partido Socialista, em cuja Sede, em 1979, conheci, quando assinei a “Carta de Lisboa” que marcou a reorganização do trabalhismo no Brasil, sob a liderança de Leonel Brizola. Mas o documento aprovado por 75% dos convencionais, ontem, em Braga - “O novo ciclo para cumprir Portugal”- como marco do referido Congresso começa, como diria Maria Aparecida A. Silva no seu poema abaixo transcrito, pecando pela insuficiência do sujeito, que dá nome ao bravo que faz, pela pobreza do verbo, que é Estado – e eu diria Movimento-, e pela ausência do advérbio, de quem vamos precisar:

Aprenda Português! Brinque com a gramática!
(http://pelodesejoeprazerdeescrever.blogspot.com/)

Bendito seja o ensino
Que tira a poeira da mente
Quanto mais a gente estuda
Tanto mais a gente aprende.

Não há divisão de classes
Entre as classes de palavras
Vivem unidas entre si
Umas mansas, outras bravas.

Manso é o artigo
Nem sempre de primeira
Ora define, ora indefine.
Fica sem eira nem beira.

Substantivo?
Este é bravo
Abstrato ou concreto
Comum, próprio, coletivo,
Dá nome ao “ser”, é completo.

O adjetivo exalta, enaltece
Está sempre em atividade
Às vezes machuca,
Sem piedade.

Numeral, agora sim
Acompanha a tecnologia
Está nos computadores
Enche o bolso, esvazia.

Estes pronomes irrequietos
São pessoais, oblíquos e retos
Cerimoniosos, de tratamento
Aconchegantes, bem a contento.

Se há antecedente
O pronome torna-se relativo
Se algo lhe perguntam
ica logo interrogativo.
Demonstrativos, com personalidade
Acompanhando “o ente” são adjetivos
“Denotando-o” são substantivos - barbaridade!

Enclíticos, proclíticos, mesoclíticos,
Átonos ou tônicos
mporta colocá-los no lugar
Para que o todo se torne harmônico.

Advérbio te conheço
De algum modo, tempo ou lugar
Se afirmo, duvido ou nego
É de ti que vou precisar.

Verbo, riqueza da língua
Palavra forte, ação
Sozinho ou acompanhado
É fenômeno, é estado.

Conjunção liga frases
É argamassa na construção
Pode dar sentido ao texto
É coerência, é coesão.

Preposição, que seria de nós
Sem a tua ajuda?
Tu ligas regente e regido
Se te empregamos de qualquer jeito
O sentido muda.

Interjeição é bem “light”
Expressa emoção
Alegria, raiva, dor...
Sai da boca sem preocupação.

Adjetivo, artigo, advérbio, numeral
Substantivo, verbo, preposição, conjunção
Interjeição e pronome são classes de palavras
Umas são mansas, outras são bravas.
Use-as com parcimônia
escubra toda a beleza
De nossa Língua Portuguesa!

Words, words, words..., mas que dizem tudo, muito mais do o mero reconhecimento do documento do PS de que “As palavras estão gastas”.

Paulo Timm

quinta-feira, setembro 29, 2011

Cartas Portuguesas - de Lisboa (VII)

PARTIDO SOCIALISTA: NOVO CICLO PARA CUMPRIR PORTUGAL? - 11 setembro 2011
[Continua]

Vendo-se, entretanto, à distância, a questão do défice público em Portugal percebe-se que nem o PS, nem as forças mais à esquerda, catalisadas por um Partido Comunista extremamente dogmático e arraigado aos velhos dogmas estatizantes do marxismo, detêm uma clara visão sobre a origem da deterioração das contas públicas. Ponto crucial da crise do país, esta questão deveria ser tratada por documentos convincentes a serem apresentados à sociedade, com clara demonstração da evolução do ciclo completo das contas públicas no país: quanto o Estado arrecada, quem paga esta conta, segundo as classes de renda, regiões e atividades, e onde os impostos são gastos, como tudo isto se desenvolveu nos últimos dez anos.
Simples, direto e fartamente documentado algo me diz que o problema não está nos gastos correntes do governo, com custeio de sua máquina ou dos programas sociais, tal como a Troika alega, reverberando a visão da crise feita pelo setor financeiro, mas no custo da própria dívida. É possível até que alguns intelectuais da esquerda o saibam, mas não traduzem o que sabem em documentos oficiais dos Partidos aos quais pertencem. Toda a discussão da crise e do défice público, aqui, vagueia nas nuvens da ideologia, sem âncora nos dados.
Tampouco se vê, aqui – o que de resto acontece no Brasil – uma articulação maior entre os Partidos e a inteligência do país. Assim sendo, a proposta de fixar um limite para o endividamento do país na Constituição, cai no vazio, sem sentido. Como fixar este limite? Em que número? Nos 6% estabelecidos pela Comissão Europeia? Por quê, se no seu interior há países com níveis de desenvolvimento extremamente desiguais e que são obrigados a se utilizar do recurso do défice público para acelerar sua formação de capital fixo e humano como compensação à inflexibilidade da política monetária num regime de moeda única? E como fixar um limite de endividamento quando inexiste uma Lei Ordinária de Responsabilidade Fiscal extensiva às regiões autônomas como a Madeira e municipalidades?
A histórica virada do Partido Socialista português, portanto, se o requalifica junto ao eleitorado para uma volta breve ao poder, nada acrescenta à compreensão da crise no país, nem aponta para uma verdadeira estratégia de consenso nacional em torno das tarefas que aprofundem a democracia interna e a participação da sociedade na busca de soluções desta crise. Aposta em si mesmo, no velho estilo da política tradicional, apesar da retórica renovadora:
(...) buscamos o envolvimento das pessoas. Queremos fazer política com as pessoas e para as pessoas. A participação e o envolvimento das pessoas determinam o êxito das propostas políticas. Só um projecto mobilizador do melhor que há em cada um de nós pode gerar um horizonte de esperança.(...). Queremos fazer política com as pessoas e para as pessoas. A participação e o envolvimento das pessoas determinam o êxito das propostas políticas. Só um projecto mobilizador do melhor que há em cada um de nós pode gerar um horizonte de esperança.
(PS -
http://www.onovociclo.org/wp-content/uploads/2011/06/MocaoONovoCiclo_AntonioJoseSeguro.pdfnovocicloparacumprir Portugal)
Pior, sem apresentar sequer uma convincente plataforma, nem análise aprofundada da crise em Portugal, nem muito menos das projeções ideológicas de sua sociedade. Só princípios gerais, confirmando a tendência à infantilização dos Partidos contemporâneos por todas as partes:
Assim, a acção política do PS é e será definido por três palavras:
Responsabilidade, contribuindo de forma activa para resolver os problemas que enfrentamos, na formação dos consensos que verdadeiramente defendam o interesse nacional e criem condições sustentáveis de melhoria das condições de vida dos portugueses;
Solidariedade, na partilha de sacrifícios aos portugueses e na defesa, também, da equidade entre gerações, como forma de não pôr em causa a coesão social nem comprometer o futuro;
Modernidade, como forma de reforçar a nossa capacidade competitiva, elevando a produtividade do trabalho e criando condições para o aumento sustentável dos salários e do nível de vida das pessoas. (Idem - PS)
[Continua]

Paulo Timm

quarta-feira, setembro 28, 2011

Cartas Portuguesas - de Lisboa (VI)

PARTIDO SOCIALISTA: NOVO CICLO PARA CUMPRIR PORTUGAL? - 11 setembro 2011

“Uma das imagens que retive destes dias fora da Europa foi a de grandes manadas de zebras e gnus a atravessar uma estrada num tropel violento, para, poucos minutos a seguir, fazerem com igual convicção e alarido o trajecto exactamente oposto”. (Elisa Ferreira in Jornal Confidencial – Sol , 05 agosto 2011- Portugal)

“Viragem”, aqui em Portugal, é o mesmo que virada, mudança de rumo. Foi isso que aconteceu neste fim de semana na realização do XVIII Congresso do Partido Socialista Portugal, ao qual compareceu o decano Mário Soares, Ex- Presidente da República e figura mais expressiva deste Partido. Comenta-se que há 25 anos não comparecia aos encontros. Por alguma razão apareceu agora. Seria a crise? Ou a crise do próprio PS? Vários outros nomes históricos do PS também estiverem presentes e fizeram contundentes discursos em favor da união do Partido que inicialmente parecia dividir-se entre duas tendências opostas
Portugal atravessa severa crise e o PS, depois de alguns mandatos desde 1976, quando foi aprovada a atual Constituição, acaba de ser apeado do poder por uma coligação conservadora liderada por Pedro Passos Coelho, do PSD. Tratando-se de uma força política poderosa, ideologicamente correspondente, no Brasil, ao PT, embora sem raízes tão fortes no movimento social organizado – sindicatos e outros novos agentes – o PS, num momento de crise no país, procura se revigorar. Para tanto, vira-se à esquerda, substituindo, inclusive, a tradicional mão com a rosa, símbolo da II Internacional, na qual o PDT ocupa honroso lugar, graças ao apoio de Mário Soares a Brizola, pela punho fechado, em sinal de luta. Sem rosas... O tradicional hino do PS também acompanhou a mudança. Tal como Dom Pedro I na Independência do Brasil, o PS apressa-se a ocupar a esquerda antes que “outros o façam”. Mas, mesmo com grandes diferenças internas quanto à forma com que o Partido deve situar-se na conjuntura, permanece na Secretaria-Geral o líder José Seguro. Maria Belém fica na Presidência da agremiação mas, aqui, nos marcos do parlamentarismo, a autoridade efetiva é a do Secretário Geral.
Qual o grande problema do PS português? O Partido esteve seis anos à testa do Governo na pessoa de José Sócrates e só foi derrubado acerca de três meses em virtude do desgaste deste perante a crise. Enfrentou, portanto, os primeiros desafios da crise e chegou, até, a firmar o acordo com a chamada troika européia – COMISSÃO EUROPEIA, FMI e BANCO CENTRAL EUROPEU -, para evitar o desastre em Portugal. A desagregação seria uma consequência da incapacidade do Governo pagar seus títulos em decorrência do défice público, já superior a 100% do PIB, tal como Irlanda e Grécia. O mesmo fantasma que ronda Espanha e Itália. Rigorosamente, a deterioração das contas públicas em Portugal ocorreu justamente no período de governo socialista. Este Partido não teve jamais a coragem de implementar uma ampla Reforma do Estado, capaz de evitar o acumulo dos défices, nem, aliás, detém hoje um plano articulado alternativo ao do Governo. Na oposição, desloca-se para a esquerda como uma típica manobra eleitoral tentando aproximar-se do eleitorado severamente castigado pelo aperto fiscal do Governo. Quem melhor qualifica esta manobra é o Partido Comunista, bastante forte em Portugal. Afirma que a única diferença entre o PS e o PSD é que o primeiro defende o Protocolo de aperto financeiro exigido pela Troika, enquanto o PSD , mais realista do que o rei, o leva um pouco mais adiante. Nada de substancial.
[Continua]

Paulo Timm

sábado, setembro 24, 2011

Cartas Portuguesas - de Lisboa (V)

PORTUGAL, UMA POESIA EM AZUL E BRANCO COM TEMPEROS EXÓTICOS - 09 Setembro
[Continuação]

BRASILEIROS! CONHEÇAM , POIS, PORTUGAL!!!
Aos aposentados, não façam como Frances Mayes. Venham para a Terrinha dos ancestrais, nem que seja por alguns meses do ano. Aqui a vida é barata e muito tranqüila, a comida, como vimos, das melhores do mundo, regada aos melhores vinhos. A tradição poética reverbera no fado e desce pelos azulejos em azul e branco das paredes convidando-o a um passeio celestial. A programação cultural de Lisboa e outras cidades, como Guimarães e Coimbra, invejável. De resto, embora portugueses não acreditem nem apostem muito no filho rebelado e permissivo dos trópicos americanos, o Brasil pode ajudar muito na atual crise do país. O problema crucial do endividamento público aqui, ao contrário do Brasil, é também, reflexo de um grave endividamento externo da economia portuguesa, que corresponde a uns 3% do PIB da União Europeia, que é equivalente ao PIB do Brasil. Pretendem eles, com grande esforço, enfrentar este desafio exportando até 50% da sua economia, o que corresponderia a cerca de US$ 100 bilhões, valor para o qual, tanto um volume maior de exportações do Brasil como o envio de mais brasileiros para cá, poderia contribuir sensivelmente. Ou seja, se o Brasil contribuir com 1% de seu vigoroso PIB de US 1 trilhão, ou US$ 10 bi, para a superação da crise portuguesa, através de um Programa de Cooperação e Assistência Técnica a serem elaborados pela Comissão Permanente do Acordo de Amizade e Cooperação entre Brasil e Portugal, firmado no ano 2.000, terá dado um grande passo na reaproximação entre os dois países, resfriada desde os tempos de Salazar, em razão do persistente colonialismo do ditador na África.
Quanto aos jovens, bom que saibam que o ensino de Portugal é de excelente qualidade e que todos os cursos aqui feitos são reconhecidos no Brasil, graças ao Acordo de Amizade e Cooperação firmado no ano 2000. Além disso, muito baratos, principalmente quando se trata de cursos de pós-graduação, verdadeiramente inacessíveis no Brasil a milhões de formandos em busca de aperfeiçoamento. Outro Acordo, de Saúde, pouco conhecido entre os brasileiros, garante reciprocidade no atendimento de saúde e hospitalar entre brasileiros e portugueses, conhecido como PB4. Nunca foi tão fácil...

Enfim, como preconizavam Gilberto Freire e Darcy Ribeiro, além um velho conhecedor das tradições ibéricas na conformação da modernidade ocidental , Richard Morse (www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo), para não falar do historiador Eric Hobsbawn, hoje fascinado com nossa cultura, a América Latina é o estuário do helenismo, pela via da Peninsula Ibérica, e nela o Brasil tem um lugar especial. Nós somos os herdeiros dos gregos, no culto à liberdade como delírio da razão. O paradoxo em movimento... Olhar para Portugal, pois, não é um truísmo, mas importante elemento de redescoberta das nossas potencialidades já reveladas no nível econômico, mas subjacentes no plano da cultura e do humanismo. É, verdadeiramente, a grande redescoberta do Brasil, desta vez, pelos por nós mesmos...

Paulo Timm

quinta-feira, setembro 22, 2011

Cartas Portuguesas - de Lisboa (IV)

PORTUGAL, UMA POESIA EM AZUL E BRANCO COM TEMPEROS EXÓTICOS - 09 Setembro
[Continuação]

Eis a revelação: Portugal pode não ter tido a sofisticação da corte dos Luises, sob a qual, aliás, um povo faminto morria de fome, indo à Revolução de 1789. Aqui, pode não ter havido baixelas de prata e sofisticados cristais sobre as mesas, mas foi o próprio povo que se sofisticou na arte de comer bem, incorporando na sua cozinha, tal como fez na genética, na arquitetura e na poesia, as sucessivas levas de produtos (azeitona e azeite), temperos ( sopa de coentro com alho picante...?) e pratos (açafrão com figos...?) de suas camadas históricas. Rigorosamente, não há culinária tão variada quanto a portuguesa, resultado tanto das várias contribuições culturais que se juntaram neste pedaço do fim do mundo, como da grande variedade geográfica e climática do antigo e precoce Reino, o primeiro da Europa, fundado em 1139 por D. Afonso, com sede em Guimarães. E onde o mapa não colaborou, a caravela providenciou, trazendo porões carregados de especiarias, de grãos, de açúcar, do mundo inteiro para as cataplanas portuguesas. O que é isto...? Apenas umas grandes frigideiras com tampa, como se fossem ostras a cultivar pérolas preciosas em seu interior... Que outro país faria da mera sopa uma fumegante iguaria? Pois “NÓS TEMOS SOPA”, dizem os portugueses, orgulhosos. Mil e uma receitas das mais estranhas combinações, dentre as quais a mais famosa, a de pão, denominadas açordas e que se tomam de garfo... E há quem diga que no norte fazem uma indescritível sopa de pedra... Não duvido.
Porém, não estará o boa cozinha portuguesa em sofisticados restaurantes. Ela está na mesa dos portugueses de todos os cantos do país e nas tascas rudimentares onde se juntam trabalhadores. E para desvendá-la nos mais mínimos detalhes de sabores e ingredientes, nada melhor do que “A Tradicional Culinária Portuguesa”, de Maria de Lourdes Modesto. Imbatível!

“Carlos nos deu o nome de uma tasca. Felizmente, porque sendo tão local talvez jamais nos aventurássemos a entrar só de olhar pelo vão da porta. Com metade do tamanho de uma garagem para um carro apenas... nós nos esprememos em cadeiras numa mesinha minúscula de canto (onde) trazem rapidamente três queijos regionais junto com uma cesta de pães de fazer chorar. Em seguida, nos servem tigelas de sopa de repolho. O português na mesa ao lado nos oferece um pouco do seu javali. Isso nunca me aconteceu em nenhum outro país do mundo. Depois o garçom aparece com uma travessa de estanho com carne de porco grelhada com nacos de alho, coentro e azeite de oliva, acompanhada por um prato de cerâmica com arroz e caldo de feijão. (...) Nós nem sabemos o nome do lugar. É Manuel Zé dos Ossos? O endereço que Carlos nos deu (...) diz Beco do Forno, 12, atrás do Hotel Astoria (Coimbra). Não conseguíamos encontrá-lo e perguntamos a várias pessoas onde ficava a tasca. Todos, inclusive o policial, indicaram o local. Cada mordida é uma satisfação e curtimos a atmosfera de operários e homens de negócios alimentando-se com uma comida robusta.”
(Frances Mayes, in “Um ano de viagens”, da Editora Rocco, 2006, pg. 134)

E se o paladar já era rico em terras lusitanas, o Brasil lhe adoçou o bico, estimulando a invenção de um sem número de guloseimas como os ovos-moles, tortas irresistíveis, misturas paradisíacas de abóbora com amêndoas, o pastel de Belém, o toucinho-do-céu . Ao final, já no século XIX, ofereceu-lhe ainda o café, hoje um dos mais bem servidos e saborosos da Europa, de matar de inveja os franceses.
É José Saramago quem nos guia, hoje, por Portugal (www.citi.pt/cultura/literatura/.../saramago/via_vp1.html), como Eça de Queiros nos guiava no passado entre as “Cidades e as Serras”. Mas temos também, inúmeros guias especializados. Alguns intragáveis. Prefiro, pois, recomendar a leitura de um capítulo sobre Portugal do livro, citado acima, “Um ano de viagens”, de Frances Mayes, Editora Rocco, 2006 , uma americana apaixonada pela Europa, residente na Toscana, autora de outro livro excelente, levado ao cinema: “Sob o céu da Toscana”. Ela se pergunta, aí, sem responder, por que (?) não veio viver em Portugal, tamanho o fascínio que devota à esta terra. Acho que consigo lhe responder. Vejamos:
A Itália tem um imenso encanto próprio, eivado na sua tradição renascentista. Tudo naquele país é belo e magnífico, começando pelas pessoas, seguindo pelos seus vales, até chegar ao mais genital de sua história, no Império Romano. Não por acaso o melhor design do mundo está nos produtos italianos e a capital da moda se mudou de Paris para Milão. Uma colega da Universidade de Brasília , Maria Lucia Maciel, dedicou-se ao assunto e escreveu um memorável livro: O milagre italiano: caos, crise e criatividade (Relume Dumará/Paralelo15,1996). Conclusão: O talento abunda na Itália e se manifesta na sua industria. Foi a Itália, também, a primeira porta de entrada dos americanos na II Guerra Mundial, levando-os ao fascínio com tudo o que viam. Logo após esta Guerra, a Itália viria a vivenciar seu grande milagre econômico, chegando a converter-se numa das grandes economias européias, hoje, com 18% de seu Produto Interno. Juntando-se o espetáculo industrial com a tradição das artes e a beleza dos cenários naturais e criados, como a Toscana, a Itália acabaria seduzindo a América do Norte desertando-a de Paris. Hemingway é um bom exemplo disso, tendo ele próprio escrito “Paris é uma festa”, no início de século XX - e lá se convertido em grande escritor- , volta seus olhos para a Itália onde escreve, depois da II Guerra, outro belo romance, pouco conhecido – “Do outro lado do rio, entre as árvores” , 1950, Ed. Bertrand, Brasil- no qual revela o enlevo de um coronel americano por uma jovem e encantadora princesa italiana. A Pax Americana, em ascensão, dobrava-se à milenar Pax Romana... E lá se foi a nossa grande escritora Frances Mayes dormir seu sono de donzela na Toscana e não no Algarve.
Enquanto isto, Espanha e Portugal, que poderiam ter disputado com a Itália o esplendor do pós-guerra, continuaram mergulhados em ditaduras anacrônicas do pré-Gerra. Quando delas despertaram, na década de 70, foram engolfados pela globalização que, na Europa, atende pelo nome de União Européia, uma difícil iniciativa de nações com culturas e níveis de desenvolvimento completamente diferentes, para se contrapor a outros poderosos blocos do mercado internacional.
Portugal, entretanto, mesmo integrado à modernidade mantém seus traços provincianos de valorização da dignidade humana, presentes na qualidade de vida de seus concidadãos combinado com as aquisições de bem-estar social da Constituição de 02 de Abril de 1976, emanada da Revolução dos Cravos, de 25 de Abril de 1974. Isto lhe garante um honorável posto entre os 20 países com melhor qualidade de vida no mundo.
[Continua]

Paulo Timm

segunda-feira, setembro 19, 2011

Cartas Portuguesas - de Lisboa (III)

PORTUGAL, UMA POESIA EM AZUL E BRANCO COM TEMPEROS EXÓTICOS - 09 Setembro
[Continuação]

Portugal é um país pequeno na extremidade ibérica, povoado, sucessivamente, por inúmeros povos em suas andanças à procura do Fim do Mundo, desde tempos imemoriais. Estou falando de neandertais e cromagnons que deitaram aqui seus vestígios por toda parte – guardados com carinho no Museu Arqueológico Martins Sarmento, em Guimarães, berço da Pátria portuguesa. Outro sítio, celta – Citânia de Briteiros- também está nesta cidade. A eles se sucederam, no curso de séculos vários outros povos, dando a esta parte da Europa um caráter de esquina do mundo, sobre a qual se debruçaram, como numa sacada, ansiando pelo mar oceano. Finisterra, para o homem – primitivo, clássico, medieval - inquieto em seu andar, sempre à cata de novas paragens. Começo da geografia continental para os modernos que atravessam o Atlântico, nos dias de hoje. Borda da história, como um acontecimento...Fato e fado, este não por acaso o evocativo musical do país, intercalando-se a cada passo.
Com efeito, aqui, mais do que em qualquer outro lugar, o tempo é a medida da eternidade sem compasso; o homem esta eternidade em seus passos. Portugal guarda consigo esse mistério como uma esfinge metafórica postada no umbral do infinito a clamar: Decifra-me! Seu canto dilacera os corações pasmando até mesmo ouvintes que nada entendem da letra. A só música basta e corta. A palavra saudade brota lapidada pela exclusividade do sofrimento português, como nenhuma outra, em qualquer idioma:

Oh águas do mar salgadas,
De onde lhes vem tanto sal.
Vem das lágrimas choradas
Nas praias de Portugal
(António Oliveira Ferreira, poeta português)

Um tão grande sofrimento teria que se refrescar em alegorias. Aqui elas estão por muitas partes, mas se sintetizam no azul e branco dos azulejos que percorrem ruas inteiras de várias cidades, pátios mediterrâneos e fachadas de muitos casarões ao largo do país e os interiores das “casinhas”. Como gostam dos diminutivos! E como eles se casam alegremente com os azulejos! Meu pequeno apartamento, em Covilhã, aqui é uma “casinha” e se alia à tradição. Abre-se diretamente no que poderia ser um mero corredor que distribui para os quartos, a cozinha, a sala e o banheiro, mas, lusitano, alarga-se como uma ante-sala mais ampla só para estampar seus azulejos. Olho embevecido - que maravilha! O azul e o branco como que nos trazem um pouco do céu ao alcance das mãos. Têm o mesmo efeito simbólico que as curvas de Oscar Niemeyer que viriam a sepultar as pesadas colunas enlaçando num mesmo gesto edificante os ares e o solo da modernidade. Os azulejos, enfim, estão para Portugal, como os tapetes para o Irão e como os frescos para o Renascimento e as curvas para Niemeyer.
E há a poesia, que, aliás, dá-se, aqui, como o próprio tempo. Ela está na confirmação da língua portuguesa, com Camões, secundando Homero na épica lusitana. Darcy Ribeiro retirou daí a convicção de que somos os herdeiros mais legítimos do helenismo: mistura de gentes, paixões dionisíacas à solta, o mar como fronteira e cinzel da razão, a criação poética como fundamento da filosofia. O caleidoscópio civilizatório. Noel Rosa que o diga ao assinalar a poesia como parte do cotidiano do morro brasileiro:

Fazer poema lá na Vila é um brinquedo
Ao som do samba dança até o arvoredo

A poesia atravessa toda a história de Portugal, vincando a prosa de Fernando Pessoa como se fossem versos:

Que há (de alguém) confessar que valha ou que sirva?
O que nos sucedeu, ou sucedeu a toda a gente ou só a nós;
num caso não é novidade, e no outro não é de compreender.
Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de
sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem
importância. Faço paisagens com o que sinto. Faço férias das
sensações. Compreendo bem as bordadoras por mágoa e as
que fazem meia porque há vida. Minha tia velha fazia paciências
durante o infinito do serão. Estas confissões de sentir
são paciências minhas. Não as interpreto, como quem
usasse cartas para saber o destino. Não as ausculto, porque
nas paciências as cartas não têm propriamente valia. Desenrolo-
me como uma meada multicolor, ou faço comigo figuras
de cordel, como as que se tecem nas mãos espetadas e se
passam de umas crianças para as outras. Cuido só de que o
polegar não falhe o laço que lhe compete. Depois viro a mão
e a imagem fica diferente. E recomeço.
( F.Pessoa – Livro do Desassossego , pg. 45)

Assim, entre azulejos e versos, que inspiram a alma, chega-se à cozinha. Haverá algo mais sublime na civilização do que este corte entre o cru e o cozido? Estudos recentes, intuídos por Levy Strauss, um dos pais da Antropologia Moderna, demonstram que neste entre-acto, assim mesmo, cerimoniosamente, esteve o elo perdido entre o humano e seu ancestral. O levar o alimento ao fogo teve o mesmo sentido do pintar-se o corpo na busca de uma identidade. Uma diferenciação. Já não mais a coleta ou o devoramento instintivo das caças. Mas a mediação: o intervalo da consciência entre o apetite voraz e o desejo. Depois veio a mesa, como uma das mais decisivas instituições do Império Romano. “Ainda ensinaremos estes bárbaros a se banharem e a sentarem-se à mesa”, proclamavam os generais romanos em suas refregas pela conquista do mundo então conhecido... Séculos depois, restou aos europeus, aprendida a lição da mesa, sofisticar os pratos e inventar os talheres, tais como hoje os usamos. Tudo para que os americanos acabassem eclipsando estes saltos civilizatórios com a invenção dos fast-food... Mas quanta saudade da “Festa de Babete”...
[Continua]

Paulo Timm

domingo, setembro 18, 2011

Cartas Portuguesas - de Lisboa (II)

PORTUGAL, UMA POESIA EM AZUL E BRANCO COM TEMPEROS EXÓTICOS - 09 Setembro

Com o perdão de meus afilhados de casamento J.C. e M., que passaram, recentemente, sua lua de mel em algum recanto paradisíaco do Caribe, não consigo entender o quê brasileiros vão fazer naquela parte do mundo quando têm, a seus pés, a mansidão de infindáveis praias do Nordeste, verdadeiras maravilhas no cerrado, particularmente em Bonito –MT , a pujança dos hotéis no meio da Amazônia e uma nação inteira para visitar no extremo sul, com sua variedade geográfica, étnica e cultural. Para não falar em Portugal... Aliás, a propósito, vou falar sim!
Já havia estado em Portugal por duas vezes.
A primeira, ao encontro de Leonel Brizola, em 1979, atendendo sua convocação para a reorganização do trabalhismo no Brasil que resultou na assinatura da histórica Carta de Lisboa, ao cabo de vários dias de reuniões na Sede do Partido Socialista, no Largo do Rato, graças ao apoio de Mario Soares. Na época varei Lisboa de ponta a ponta e, graças à generosidade de um velho político brasileiro, Hugo Borghi, lá presente, senhor de muitos prósperos negócios, que se fez meu amigo, conheci o que de melhor há na suculenta cozinha portuguesa.
Depois, no ano 2000, aqui estive a passeio, novamente e, no itinerário até Fátima, deliciei-me com a bela paisagem ao longo da estrada.
Agora venho com mais calma, para uma estada de dois anos. Cheguei à Lisboa na manhã do dia 30 de Agosto de forma a poder desfrutar, ainda, o último mês do verão europeu. Depois, sei que vou sofrer/ não sei a hora...Sou friorento. Saio rápido do Aeroporto, carregado de malas e procuro a Rota A-23. Meu destino é Covilhã, ao nordeste do país, fronteira com Espanha, a 220 km de Lisboa, onde chego um pouco cansado, perto do meio dia e me ponho a saborear o famoso queijo de ovelhas (aqui dizem ubelhas) da Serra da Estrela, com um bom vinho, ambos recomendados pelo meu amigo Paulo Roberto Pegas, de Torres, no Rio Grande do Sul. Aleluia!
Não me deterei, hoje, sobre a bela Covilhã serrana. Haverá tempo. E até quero conhecê-la mais para poder dizer-lhe melhor sobre encantos e propriedades. Registro, ainda, que não resisti à tentação (lembro-me sempre da máxima de Oscar Wilde: Só os fracos resistem à tentação) de conhecer logo Salamanca – velho sonho -, a 180 km de onde estou. Sobre este portentoso monumento da Idade Média também reservarei outro dia. Hoje é Portugal. Impressões, leituras, informações. E o apelo aos concidadãos brasileiros: Visitem a Mãe-Pátria! Aqui não encontrarão nenhuma resposta, que, de resto, soem ser vãs ilusões, mas ampliarão horizontes que lhes permitirão entender as origens culturais – Minha pátria é minha língua, como dizia o grande poeta Fernando Pessoa - , conhecer o passado comum mergulhado na romanização da Europa e no medievalismo da cristiana idade, e ainda saborear as delícias de uma das melhores cozinhas do mundo.
(Continua)

Paulo Timm