Economia Portuguesa

Espaço de debate de temas de Economia Portuguesa e de outros que com esta se relacionam, numa perspectiva de desenvolvimento

sábado, janeiro 07, 2023

Do baú de memórias de um professor universitário: "Universidade e desenvolvimento regional"

Quer tomemos como ponto de partida a abordagem funcionalista quer a territorialista, instituições como a Universidade podem ser importantes instrumentos de desenvolvimento, se bem que o sejam mais quando a estratégia tenha uma matriz informadora endógena.

No primeiro caso, a Universidade será assimilável a investimento externo, eventualmente público, dotando o território de um equipamento importante pelos seus impactes em termos de criação de rendimento e de emprego, de estimulo à fixação e desenvolvimento de actividades económicas e à modernização da sociedade.

No segundo caso, a sua importância estratégica é maior já que a Instituição tende a ser vista como um agente da parceria para o desenvolvimento. Um parceiro tanto mais estratégico quanto as rupturas tecnológicas e organizacionais vêm sublinhando a componente criação e partilha de conhecimentos inerente a qualquer projecto de desenvolvimento. Isto é, o conhecimento e a acção associada ao domínio do saber tecnológico e organizacional, do saber e do saber-fazer, são os elementos portadores da diferença entre ganhadores e perdedores da batalha do progresso social do presente.

Estamos, entretanto, a invocar um modelo de Universidade que descolou daquela cujos traços caracterizadores são: i) a criação de conhecimentos, que são armazenados nas bibliotecas; ii) a transmissão de conhecimentos às novas gerações que se vão sucedendo; iii) o carácter elitista da oferta de formação que assegura, que a faz funcionar como filtro social.

Na fase de transição, a Universidade continua a formar as novas gerações mas, também, a intervir na formação continua. A oferta de formação tende a alargar-se e a equilibrar-se com a procura social. As expectativas que a sociedade coloca nas Instituições aumentam, se bem que as barreiras impostas pela estrutura produtiva (em especial, quando constituída por PMEs com restrita participação nas actividades de I&D e uma fraca dotação de técnicos qualificados) possam constituir barreiras ao desenvolvimento da relação da Universidade com o meio.

Esta fase intermédia anuncia o advento de um novo modelo cujos traços essenciais se podem já reconhecer (Massicotte, 2002): i) o conhecimento cria-se através da acção e uma nova partilha de tarefas institui-se entre investigação fundamental e aplicada, investigação e desenvolvimento, inovação e transferência; ii) a formação não está mais a montante da investigação, mas insere-se no próprio processo de criação de conhecimento; e iii) a procura social de formação ultrapassa a oferta, daí o deslocamento do acento da selecção para o sucesso.

O crescimento da procura de acesso à formação superior de que se fala é consequência da crescente proporção de actividades que requerem conhecimentos e aptidões de alto nível. Uma e outra coisa têm origem na aceleração dos avanços científicos e tecnológicos e das respectivas aplicações, numa dialéctica que a UNESCO (1998, p.26) sintetiza como segue: “o acelerar do avanço tecnológico, a obsolescência de algum conhecimento e o aparecimento de novas áreas de conhecimento e novas sínteses conduzem a um processo que, por sua vez, requer mudanças na educação superior”.

Perante esta realidade, o sucesso de uma organização ou de um território depende, cada vez mais, do conhecimento de que dispõem ou são capazes de gerar, num quadro de procura de resposta para as necessidades identificadas. Acresce que, à luz deste modelo societário e deste ritmo de transformação, os saberes dos especialistas esgotam-se rapidamente se não puderem integrar-se em equipas e em redes de criação e divulgação do conhecimento.

Para as Universidades e para os territórios, é um desafio de grande exigência este que lhes é colocado. Adicionalmente, pela natureza do projecto de construção social entrevisto, é um desafio que se vence através de uma estreita congregação de esforços com os demais parceiros do projecto colectivo de desenvolvimento.


J. Cadima Ribeiro


Referências:

Massicotte Guy, "L’enseignement supérieur et le développement des territoires", Le développement des territoires: nouveaux enjeux, Le Mouvement Territoire et Développement (Ed.), Grideq, Université du Québec, Rimouski, pp. 5-12.

        UNESCO (1998), “Higher Education in the Twenty-first Century: Challenges and Tasks Viewed in the Light of the Regional Conferences”, Word Conference on Higher Education, UNESCO, Paris.


(Texto publicado no Jornal de Leiriaem 2007/08/23)

sábado, dezembro 17, 2022

quinta-feira, outubro 13, 2022

Lista de publicações da minha autoria ou co-autoria

Para quem não é utilizador habitual de redes sociais de âmbito académico/científico e possa estar interessado em aceder a textos meus que tratam diversas facetas da realidade portuguesa e não só, deixo aqui o endereço da minha página do ResearchGate:   

https://www.researchgate.net/profile/Jose_Ribeiro14/

A maior parte dos docs. aí depositados encontra-se em acesso aberto. Se algum dos textos lhe/vos puder ser útil, tanto melhor.

Cordiais saudações académicas,


J. Cadima Ribeiro

segunda-feira, maio 09, 2022

A Fileira Portuguesa dos Têxteis e do Vestuário: das ameaças do início do séc. XXI aos desafios do presente

Com a entrada da China na Organização Mundial de Comércio (OMC), a Indústria dos Têxteis e do Vestuário (ITV) portuguesa enfrentou grandes dificuldades competitivas, acentuadas pelo alargamento da União Europeia a Leste. Na procura de futuro para a fileira, algumas entidades, entre as quais o Centro de Estudos Têxteis Aplicados, foram levadas a conduzir estudos de natureza estratégica. Em resposta a convite para participar em conferência sobre a fileira dos têxteis e do vestuário, achei interessante questionar em que medida os resultados do presente foram os que se antecipava que pudessem ser percorridos para assegurar a continuidade do setor. Para esse efeito, consultaram-se os estudos e a informação setorial que vai sendo divulgada sobre a sua evolução e, através de entrevistas semiestruturadas, inquiriu-se alguns protagonistas da fileira. Concluiu-se que a ITV portuguesa viveu na última década um momento de reposicionamento e afirmação, se bem que as razões do sucesso mereçam apreciações diversas, desde a avaliação de que “Não aconteceu nada daquilo que nós dissemos que ia acontecer” (Braz Costa) à de que “15 anos depois, [o que havia sido equacionado] foi concretizado com muito sucesso” (António Falcão). Em relação ao que possa ser o futuro, as perspetivas recolhidas são igualmente positivas, com sublinhados feitos para o tipo de produtos oferecidos, a atualização tecnológica e os avanços que se estão a dar em matéria de fibras e de economia circular, mas com chamada de atenção unanime para as dificuldades enfrentadas em matéria de recrutamento de recursos humanos dotados das competências que são requeridas.


J. Cadima Ribeiro

NIPE e Escola de Economia e Gestão, Universidade do Minho, Braga, Portugal, jcadima@eeg.uminho.pt


(Resumo de comunicação a apresentar no Seminário A Têxtil e o Vestuário no Vale do Ave, organizado pela Fábrica de Santo Thyrso/Centro Interpretativo, que vai decorrer em Santo Tirso, em data a definir, em  2022)

quinta-feira, março 24, 2022

Revisitando um editorial escrito para o Jornal Têxtil, em maio de 2006


Jornal Têxtil: para que te quero?

Não assisti ao nascimento do Jornal Têxtil, mas nem por isso nutro menos simpatia por este projecto informativo e pelos que, com dedicação e profissionalismo, lhe foram dando expressão substantiva. Sei que não é tarefa fácil ser voz anunciadora de caminhos incertos, mesmo que promissores. Sei, bem assim, que não é fácil ser-se ponto de encontro de um “sector” tão diverso e complexo como é o que dá nome ao Jornal. A prová-lo aí está o “impasse” porque passa a entidade que é sua promotora.

Se o futuro se constrói com informação qualificada e com conhecimento, então continuará a haver lugar para o Jornal Têxtil (JT), desde que saiba renovar-se e preservar a exigência que o tem caracterizado. É este, tal e qual, o desafio que a própria fileira produtiva enfrenta, agora mais patente face à afirmação dos grandes operadores têxteis recém-chegados aos mercados mundiais.

Na senda do caminho feito, o JT tem que redobrar insistência em conceitos operativos como os de parceria (parceria de empresas; parceria de empresas e entidades do sistema científico e tecnológico; parceria de agentes de desenvolvimento), inovação (no produto, no processo, no modelo de negócio) e de ousadia (ousar fazer diferente, ousar fazer melhor).

Braga, 24 de Maio de 2005


J. Cadima Ribeiro