Espaço de debate de temas de Economia Portuguesa e de outros que com esta se relacionam, numa perspectiva de desenvolvimento

domingo, outubro 08, 2006

Destaques noticiosos do fim-de-semana

"O presidente do Banco Central Europeu (BCE), Jean-Claude Trichet, deixou antever de novo hoje uma subida das taxas de juros já para o próximo mês de dezembro."
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Orçamento do Estado corta 30% em investimento (06-10-06, in Diário Económico)
"Forte contenção na despesa pública é a palavra de ordem do próximo orçamento. Ainda assim, os grandes investimentos serão salvaguardados."

8 comentários:

Pedro Silva disse...

Relativamente à subida das taxas de juro, as declarações de Jean-Claude Trichet destinam-se precisamente a avisar os agentes dessa subida, de tal forma que, quando a mesma ocorrer, não será surpresa para ninguém. Até certo ponto, Trichet está ele próprio, com estas declarações, a tentar assegurar a credibilidade da política monetária do BCE. Em relação à opção propriamente dita, a mesma parece fazer parte de um processo gradual e definido há muito que, dependendo da conjuntura (nomeadamente a evolução da inflação, a performance da economia europeia e a política da FED), pode continuar em 2007.

Quanto aos cortes no PIDDAC, julgo não ser fácil a análise desta questão. Por um lado, sabemos que a política orçamental deve ser em geral contra-cíclica, de forma a evitar o sobre-aquecimento da economia nas expansões e definhamento nos períodos de abrandamento ou menor fulgor. Se a escolha da melhor decisão fosse um processo tão simples, então parece óbvio que esta opção pelo corte no investimento seria errada, uma vez que o crescimento actual e o projectado é francamente modesto e a sua estabilidade não está de forma alguma assegurada.

No entanto, é sobejamente conhecida a actual situação da dívida e do défice público. Mais cedo ou mais tarde, alguém tem de pagar a dívida. Se se pretende evitar desde logo o aumento da dívida, há a possibilidade de aumentar a carga fiscal, com óbvias consequências sobre a economia, para além das tradicionais tensões sociais. Até por aí, era pouco crível que tal viesse a acontecer novamente. Se não se corta na despesa e se permite a acumulação de dívida, temos o problema do sacrifício das gerações futuras que nada têm a ver com os erros presentes (sacrifício esse que se torna maior também por via do aumento dos juros), para além dos efeitos possíveis sobre a economia no presente, nomeadamente a inflação. Desta forma, é perfeitamente compreensível a necessidade de cortar na despesa pública.

Na minha opinião, o que pode ser questionável é a opção por salvaguardar os tais “grandes investimentos” que, tudo leva a crer, são Ota e TVG. Até que ponto são estes investimentos realmente necessários para o país, tendo em conta a sua utilização futura? Não haveria alternativas menos dispendiosas, sobretudo num país com as dificuldades que Portugal atravessa? Ainda assim, saúdo a decisão de aumentar o orçamento para a ciência.

Uma nota final para dizer que, como habitualmente, o orçamento prevê cenários macroeconómicos no mínimo duvidosos. Uma projecção de crescimento do PIB de 1,8%, não estando excluída a hipótese de apresentar um cenário mais optimista, parece-me pouco credível, tendo em conta as previsões recentes de outras instituições.

Alina Gonçalves disse...

Na minha opinião Portugal está perante uma face de dois gumes. Se por um lado, estamos a tentar sair da crise (e já há sinais de retoma) o investimento não deveria ser racionado pois pode comprometer a possível e muito esperada retoma. Por outro lado, é preciso combater o défice píblico não só pelos problemas agravados para as gerações futuras (como diz o pedro silva) mas também porque não queremos ver instaurado um prodedimento de défices excessivos. Este procedimento leva, entre outros, ao pagamento de elevadas multas o que pode piorar ainda mais a situação do país. Além disso, uma vez instaurado este processo o Estado portugues iria ter a sua credibilidade em causa, não apenas perante a comunidade internacional mas também perante o próprio povo portugues o que levaria a uma grande instabilidade.

Pedro Amorim de Brito disse...

O aumento das taxas de juro, é a opção mais acertada para que a economia europeia continue a crescer "sem recaídas", porque deste modo a moeda gozará de credibilidade junto dos agentes económicos, devido ao seu valor estável. Para além disso, o aumento da taxa de juro não me parece ser capaz de influenciar a retracção exponencial dos investimentos portugueses, como foi provado últimos anos.

Analisando os cortes do PIDDAC, e a redução da despesa pública em 30%, de acordo com as directivas emanadas pela União Europeia para a redução do défice, acho que deveria haver mais coesão e equilibro nos cortes das despesas. Deste modo, deveria haver mais redução das despesas em grandes investimentos como o TGV ( que constitui um encargo elevadíssimo para uma linha Lisboa-Porto onde já existe um Alfa-Pendular com capacidade para satisfazer quem a utiliza) e menos redução das despesas em politicas sociais. Apesar de tudo, confio no trabalho deste Governo.

Marta Rocha disse...

Quanto ao aumento das taxas de juro por parte do Banco Central Europeu trata-se de uma boa opção para controlar a inflação e para melhorar as perspectivas de crescimento económico na zona euro. Sendo também importante do ponto de vista da confiança e credibilidade da moeda por parte dos agentes económicos. No entanto, o aumento das taxas de juro poderá ser tomado como um risco. De acordo com o FMI, este aumento poderá contribuir para aumentar as dívidas dos agentes, comprometendo a "qualidade do crédito no mercado imobiliário". Além disso, o FMI considera alguns casos de riscos incertos, como a quebra na oferta de petróleo, ou mesmo uma guerra, que podem provocar uma "distribuição irracional dos activos".
Relativamente aos cortes no PIDDAC, em cerca de 30%, não penso que seja a atitude mais considerável principalmente num período que se pode considerar um início de retoma. Este corte no investimento afecta algo essencial em que Portugal deveria apostar mais, que é precisamente o ensino universitário.

Luis Machado disse...

A suposta antevisão de Trichet sobre um novo aumento das taxas de juro, para Dezembro do corrente ano, deve-se a meu ver, à necessidade de antecipar as pressões inflacionistas (como sabemos, o controlo da inflação é um dos principiais objectivos por parte do BCE), mantendo assim a credibilidade do Euro e ao mesmo tempo capaz de criar uma “onda” de estabilidade nos preços, que é propicia para o crescimento económico e criação de emprego.
No entanto, gostava de referir, que para Portugal, este aumento das taxas de juro pode ter um risco num dos sectores mais concorridos nos últimos anos, o sector imobiliário.
Como sabemos Portugal tem uma das maiores taxas de acesso ao crédito para a habitação, e com esta previsão do aumento das taxas de juro pode ser posta em causa a capacidade de resposta a este aumento por parte dos agentes económicos.

No que se refere ao corte de 30% em investimento, previsto para o próximo Orçamento de Estado, leva a que na minha opinião se coloque uma questão fundamental:
A retoma económica de Portugal será uma realidade?
A atitude tomada por parte deste actual governo no seu inicio de mandato, devido ao estado em que se encontrava o país, foi a meu ver compreensível e de grande coragem no sentido que, visava a diminuição da despesa publica através do aumento de impostos (dos quais o aumento da taxa do IVA para 21%, eu discordei, porque na minha opinião o aumento da taxa do IVA leva a que os agentes económicos recorram cada vez mais à evasão fiscal), criação de novos impostos, cortes nas despesas correntes, e mais recentemente o aumento do combate à corrupção e fraude fiscal, ao que julgo serem atitudes de se louvar.
No entanto, depois do anunciado aumento “modesto”, como foi referido pelo governo, do crescimento da economia para 2007 de1.8% do PIB, a minha principal questão é, como se explica o corte de 30% do investimento, previstos para o novo Orçamento de Estado.
Como disse é compreensível o corte na despesa corrente mas não no investimento, uma vez que, a meu ver para se “colher” crescimento, desenvolvimento e inovação, é necessário “plantar” investimento.
É também de salientar a afirmação: “os grandes investimentos serão salvaguardados”, ao que imagino se devem referir essencialmente ao TGV e ao novo aeroporto da OTA. Assim sendo, acho na minha modesta opinião, um erro investir neste tipo de infra-estruturas, pelo que não são justificáveis simplesmente a sua concretização. O país necessita é de investir principalmente em educação e inovação, e não em obras públicas que não são em nada inovadoras e determinantes para o desenvolvimento do país. Pelo contrário, só farão com que alguns empresários se tornem ainda mais monopolistas ou por outro lado surjam “novos predadores” como é costume acontecer em períodos de “vacas gordas”…

J. Cadima Ribeiro disse...

Caro Luis Machado,
Concordo com muito do que diz mas entendo que a afirmação que faz sobre a questão da dotação do país em infra-estruturas e equipamentos públicos é mais complexa do que aquilo que enuncia, mesmo nos casos da OTA e do TGV.
Note o seguinte: i)as infra-estruturas básicos são um elemento base na afirmação da competitividade dos territórios - não há empresas competitivas se não puderem contar com serviços de apoio satisfatórios; ii) os gastos com a renovação e modernização da linha férrea Porto/Lisboa equivaqlem já aos custos com a criação de uma infraestrutura para servir o TGV, e a qualidade da linha permanece insatisfatória; iii) gosta-se ou não da OTA, há muito que o aeroporto deveria ter saido do centro de Lisboa, até por saturação da capacidade da infraestrutura existente, mas não só.
Mais se poderia dizer mas, como assinalei, nesta altura quero apenas chamar a atenção para a complexidade do tema.

J. Cadima Ribeiro

Pedro Monteiro disse...

O aumento das taxas de juro visa a normalização da política monetária. Quanto à medida, anunciada por Jean-Claude Trichet, destina-se a avisar os agentes económicos de forma a que estes introduzam nas suas expectativas novos aumentos da taxas de juro, estando desta forma a assegurar a credibilidade da politica monetária do BCE.
O aumento das taxas de juro tem como objectivo o controlo da inflação, sendo de esperar mais aumentos se as tensões inflacionistas se manterem. No que respeita ao crescimento económico na zona euro não é de esperar o abrandamento deste devido ao aumento das taxas de juro.
O BCE aproveita o bom momento da economia europeia para elevar as taxas de juro para níveis próximos do normal.

Quanto aos cortes no PIDDAC, julgo que é uma situação de difícil análise. O país está numa situação financeira difícil, logo o Governo têm que racionar da melhor forma os recursos disponíveis de forma a atingir o objectivo do défice público previsto no futuro Orçamento de Estado.
Penso que a redução da despesa pública é urgente mas tem de ser acertada, os cortes na despesa não podem ser “cegos”, penso que se deve cortar na despesa corrente mas não se deve cortar no investimento agora que a economia dá sinais de crescimento, apesar de estes serem tímidos.
Em relação ao próximo Orçamento de Estado, penso que o Governo deve investir mais em Saúde e Educação, contudo é de louvar o aumento da verba do orçamento para a ciência.

Quanto aos grandes investimentos (OTA TGV), concordo parcialmente com a política deste Governo. Apesar de não saber se a localização é a correcta, estou de acordo com a construção de um novo aeroporto, fora da cidade de Lisboa, já que penso ser uma infra-estrutura essencial para o desenvolvimento futuro do país. No que respeita ao TGV, concordo parcialmente com o plano do Governo. Como o país está numa situação financeira difícil penso que se deve dar prioridade à ligação a Espanha, porque acho que o país não deve ficar fora da rede europeia de transportes ferroviários de alta velocidade e deve aproveitar os fundos europeus atribuídos para o efeito, ficando para mais tarde, quando o país gozar de melhor “saúde” financeira, a ligação Porto-Lisboa.

Para finalizar, penso que este Governo deve assegurar de uma vez por toda a correcta aplicação dos recursos disponíveis orçamentados, pelas demais organizações públicas, de forma a controlar a despesa pública.

Fernando Saraiva disse...

Em relação ao aumento das taxas de juro, julgo que o BCE está a aproveitar o crescimento que se está a verificar na economia europeia, para aproximar as taxas dos níveis normais. Desta forma o suposto anúncio permite antecipar as pressões inflacionistas, mantendo a estabilidade dos preços, que como sabemos é um dos grandes objectivos do BCE.
Quanto ao corte no Investimento de 30%, previsto para o próximo Orçamento de Estado, é na minha opinião, o meio encontrado pelo governo para garantir o cumprimento da meta de 3,7% para o défice orçamental. A questão que se coloca, é que o leve crescimento verificado na economia, pode assim ser posto em causa, como tem sido referido, é compreensível que o corte seja feito na despesa corrente, mas não no investimento.
Na questão dos grandes investimentos, como a OTA e TGV, que segundo o governo, não serão postos em causa com este corte, partilho da opinião do Pedro Monteiro, concordo com a construção de um novo aeroporto, mas penso que se deverão realizar mais estudos sobre a sua localização, pois são apontadas inúmeras criticas á localização actual.
Quanto ao TGV, é importante para Portugal aproveitar os fundos europeus, mas julgo que a ligação Porto-Lisboa, não deverá ser realizada, pois temos soluções alternativas já existentes, e as verbas destinadas a essa obra deverão ser canalizadas para outras áreas como a saúde, educação e inovação.