Espaço de debate de temas de Economia Portuguesa e de outros que com esta se relacionam, numa perspectiva de desenvolvimento

segunda-feira, novembro 13, 2006

Algumas reflexões sobre o Dia Mundial da Poupança

No dia 31 de Outubro celebrou-se o Dia Mundial da Poupança e as manchetes dos jornais revelaram frases como: “Os portugueses poupam cada vez menos” e “Portugueses já só conseguem poupar 8,2 euros por cada 100”. Mas porquê tanto debate acerca da poupança?
Referia o Prof. Doutor Manuel Porto, numa conferência organizada pelo Tribunal de Contas, por ocasião do Dia Mundial da Poupança, que a poupança “exige da parte de todos nós (enquanto consumidores, agentes económicos ou poderes públicos instituídos) uma reflexão sobre o sentido e a importância que a poupança tem no actual contexto de consolidação e de reforma”.
Conforme salienta Celeste Varum (Directora do Mestrado em Economia da Empresa da Universidade de Aveiro), a poupança desempenha um papel essencial na economia. Isto porque, por um lado, actua como estabilizador automático, permitindo que flutuações no rendimento (devido aos ciclos económicos ou ao longo da vida), tenham um impacto reduzido no nível do consumo dos agentes económicos. Por outro lado, assegura que os recursos poupados são canalizados para o investimento. Assim, quando existem falhas na poupança interna, o resultado é um elevado endividamento externo ou um reduzido investimento.
Numa notícia da sic-online salientava-se o facto de, durante anos Portugal ter sido um país de gente poupada. Há cerca de uma década atrás as taxas de poupança rondavam os 14% mas em 2005 o seu valor era de apenas 9,2%. Em 2006 é esperado que se situe nos 8,2 %.
Mas o que tem contribuído para esta evolução da poupança? Em primeiro lugar temos as baixas taxas de juro dos depósitos a prazo que actuam como um elemento dissuasor da poupança dos agentes económicos. A juntar-se a elas temos o apelo cada vez mais elevado ao consumo, o aumento dos preços de produtos essenciais e as altas prestações do crédito à habitação. Tudo isto tem contribuído para a deterioração da situação financeira das famílias portuguesas.
A celebração deste dia veio assim sublinhar a necessidade de repensar os padrões que a sociedade portuguesa está a seguir. No entanto o seu debate não é pacífico. Lia-se num comentário na agência financeira: “Expliquem-me como posso poupar? Sou licenciado, e desde final de Setembro que estou desempregado, sem sequer receber subsídio de desemprego (pois estava a recibos verdes), a minha mulher é professora e ainda não obteve colocação, estando com um subsídio de desemprego de 600 Euros. Contas da água, electricidade, gás, supermercado, renda de casa, gastos vários, etc! Expliquem-me como posso poupar, sem sequer o ganhar? (…) Ele [Sócrates] passa a vida a falar que estamos em retoma, que a economia está a recuperar, enfim, números e mais números. Só que eu não vivo de números, infelizmente... Pode ser que explique como fazer para viver, pagar tudo o que tenho a pagar, e ainda poupar...”. E, como este, há muitos outros portugueses que se encontram em situações análogas.
É aqui que se revela a necessidade de definir (re)orientações de política que proporcionem aos agentes económicos formas de melhorar as suas poupanças. Como refere Celeste Varum, pode-se apostar numa política fiscal mais leve (nomeadamente no que se refere aos benefícios fiscais), num regime público de pensões e reformas menos intervencionistas e numa regulação da concessão de crédito. Neste contexto a incerteza poderá também actuar de modo positivo ao fomentar a poupança por motivos de precaução. Claro que, conforme realça Manuel Porto (professor na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra), “poupar não deve ser apenas entendido como uma forma de gastar menos dinheiro, mas também como um meio de gastar melhor”.
Apesar de todas as dificuldades sentidas pelos portugueses no que refere à poupança é importante que os agentes se preocupem em poupar, nomeadamente no que refere a poupar para a reforma pois, como tem sido divulgado ultimamente, o Estado terá cada vez mais dificuldades em reequilibrar a Segurança Social. No entanto, não nos devemos limitar a ver os benefícios da poupança individualmente pois, como referi anteriormente, ela tem impacto em toda a economia.
Em suma, devemos procurar soluções que permitam melhorar o “estado da poupança” em Portugal, até porque, conforme é referido no destaque do INE de Novembro do presente ano, as apreciações sobre o grau de poupança do agregado familiar mantêm uma tendência ascendente desde o início do ano corrente. Claro está que não nos podemos esquecer que os valores apresentados continuam a estar abaixo do desejável, impondo-se, no entanto, a questão “será que os portugueses ainda podem poupar mais?”.

Vânia Silva


(doc. da série artigos de análise/opinião)

3 comentários:

Clara Rosa disse...

Se por um lado se fala na necessidade de poupança, isto é, guardar parte do rendimento, por outro fala-se no aumento da corrida aos bancos para crédito no consumo, por parte das famílias.
Sem poupança, não há investimento, mas também com as despesas a aumentar, com as ajudas a diminuir, é muito difícil que os agentes económicos consigam deixar algum dinheiro cativo, dinheiro esse, que será para seu usufruto futuro. Também a ideia de ver as poupanças render já não existe, porque as taxas de juro diminuíram, não existem incentivos à poupança, para a maioria não existem, sequer, condições para poupar.
Isto é o que se passa na realidade mas, também me arrisco a dizer, que muitas famílias vivem com necessidades de apoio de gerência, porque a aplicação que fazem do seu dinheiro é catastrófica. Além desta dificuldade de conseguir poupar há muita ignorância da forma como é gasto o dinheiro, pondo em causa todo um futuro familiar.
A sociedade precisa de ter um papel mais activo, mostrar a todos o quanto é importante poupar para satisfação própria, para conseguir fazer face a despesas inesperadas, para garantir um futuro em que o Estado não poderá ajudar, e para o Investimento que levará ao crescimento do nosso país.

Alina Gonçalves disse...

Na minha opinião a poupança é muito influenciada pela conjectura económica. É de esperar que numa expansão se poupe mais uma vez que temos mais rendimento para poder fazer face às recessões. Ora, a economia europeia e não apenas Portugal está a passar por uma crise económica (e espero que com um fim á vista) e faz todo o sentido que o nível de poupança tenha diminuído.

Se uma pessoa ficar desempregada durante uma recessão é de esperar que ela recorra às suas poupanças para se sustentar. Assim sendo, eu considero que uma grande parte desta quebra de poupanças é devido à actual situação económica e não tanto à pouca importância dada á poupança. Não obstante, não nego que cada vez mais se fazem créditos para consumo de roupas, sapatos, electrodomésticos, etc..

Tal como a Vânia comenta, a poupança é um factor determinante para a economia, pois vão ser elas o "nosso" investimento. Aliás, isto pode até tornar-se num ciclo vicioso pois uma vez que em recessão as famílias vão recorrer ás suas poupanças para manterem os seus padrões de consumo, e ao mesmo tempo é nesta altura que mais indispensável se torna investir.

susana vilas boas disse...

O nível de poupança actual dos portugueses é cada vez menor, o que pode ser explicado por vários factores, como o seu baixo poder de compra, o elevado nível de vida, os baixos salários, a precariedade do emprego, pela sociedade de consumo e pelos seus apelos constantes ao consumo, e criação de constantes necessidades supérfluas, bem como o apelo á facilidade ao credito, que leva ao endividamento generalizado da população portuguesa.
A poupança é fundamental quer para a economia doméstica das famílias, quer para economia nacional, porque permite fazer face a períodos de oscilações de rendimento, e de consumo, permitindo manter um nível sustentado. Só a poupança, permite canalizar recursos para o investimento.
As baixas taxas de juro, quer para remuneração das poupanças dos pequenos aforradores, quer para quem recorre a empréstimos, explica em parte a desmotivação para a poupança.
È fundamental, que os portugueses, poupem mais, e isso não passa por não gastar, mas sim por utilizar os recursos monetários de forma mais eficiente, de forma a garantir um futuro mais segurou para que o sistema de segurança social, não seja posta em causa, são necessários sacrifícios, e um esforço de canalizar poupanças para planos reforma complementares.

Susana Vilas Boas