Espaço de debate de temas de Economia Portuguesa e de outros que com esta se relacionam, numa perspectiva de desenvolvimento

terça-feira, dezembro 05, 2006

O endividamento das famílias portuguesas

Sem dúvidas que o endividamento dos portugueses tem vindo a aumentar, acompanhando uma mudança de hábitos de consumo reflectindo uma alteração de comportamentos culturais e sociais. Também face a uma campanha tão apelativa e extremamente agressiva por parte das instituições de crédito “spread 0%” (por exemplo, no caso do crédito habitação), as famílias portuguesas acabam por se sentirem muito atraídas a consumir sem ter recursos para tal.
Contudo, não podemos ver o recurso ao crédito como um aspecto negativos dado que, quando realizado com moderação ele traz benefícios aos consumidores permitindo-lhes satisfazer necessidades presentes pela antecipação e utilização de recursos futuros. Por este motivo, o que eu acho que deva preocupar os portugueses não é o endividamento em si mas o modo como estes se endividam e a susceptibilidade de este endividamento se transformar em endividamento excessivo.
Sobre este ponto a realidade portuguesa exige que façamos uma reflexão e distingamos os casos de endividamento excessivo provocado por uma quebra do rendimento do consumidor (que pode ocorrer pela alteração da sua circunstância de vida), e o endividamento excessivo que acontece pela mera negligência do consumidor.
Esta situação muitas vezes está em virtude da utilização dos cartões de crédito, pois, grande parte dos consumidores não têm apenas dois empréstimos, o do carro e o da habitação, mas seis ou sete em simultâneo.
Para concluir é de referir que dados da Comissão Europeia revelam mesmo que a divida das famílias portuguesas poderá representar 70 ou 80 por cento do PIB, sendo realmente um valor altíssimo para o nível de rendimento das famílias portuguesas.

Raquel Oliveira

(doc. da série artigos de análise/opinião)

10 comentários:

Sandra Vilas Boas disse...

Os portugueses estão pessimistas em relação ao futuro da economia. O “fantasma” do desemprego e a perda de poder de compra são duas dos problemas que assombram os portugueses. As dívidas das famílias portuguesas ultrapassam os seus rendimentos mas o problema é desvalorizado pela banca, pois, em média, o património representa o quádruplo do rendimento disponível. No entanto, há riscos de incumprimento acrescidos na camada mais jovem, cuja contribuição para o aumento dos níveis de endividamento é maior. Os jovens são “mais permeáveis à entrada em situações de incumprimento em caso de subida das taxas de juro e/ou situações de desemprego” pelo facto de “usualmente usufruírem de rendimentos mais baixos”. É de salientar que, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), no segundo trimestre de 2005, comparando com período homólogo, registou-se um aumento no desemprego em todos os grupos etários, com maior expressão entre os indivíduos dos 25 aos 34 anos: 19,2 mil desempregados, ou seja, uma subida de 1,2 pontos percentuais, fixando-se a taxa de desemprego desta faixa etária nos 8,1 por cento.

Além dos naturais riscos derivados do desemprego e da subida das taxas de juro, um dos perigos é também a redução do valor de mercado das casas, que diminuiria o valor do património das pessoas sem que houvesse qualquer redução na dívida.

Os números do Banco de Portugal revelam que as dívidas das famílias portuguesas ultrapassam o valor dos seus rendimentos. O endividamento das famílias passou de 20 por cento do rendimento disponível em 1990 para 40 por cento em 1995 e 118 por cento em 2004. Mas este facto é desvalorizado porque o património das famílias é muito superior ao rendimento disponível.

Em geral, as famílias com menos património não financeiro têm tendência para manter o valor dos seus bens acima do valor dos créditos pedidos. Em média, “os 10 por cento menos ricos têm mais activos que passivos, situando-se a sua riqueza líquida em 1,87 mil euros”.

m disse...

Num comentário muito breve eu concordo principalmente com uma frase deste artigo "(...)o que eu acho que deva preocupar os portugueses não é o endividamento em si mas o modo como estes se endividam e a susceptibilidade de este endividamento se transformar em endividamento excessivo...",com o baixo poder de compra da maioria dos portugueses é natural que estes tenham de recorrer ao crédito para aceder a determinados bens que de outra forma não teriam, desde comprar casa, carro, computador...,contudo a falta de informação sobre os contratos de crédito que efectuam com determinadas instituições financeiras(taxas de juro, prazos), conduzem a uma situação de instabilidade financeira por parte das famílias contribuindo-se assim para um aumento do crédito mal parado; outra questão é o facto de muitos portugueses "viverem da aparência" indo além das suas possibilidades no que toca a compra de determinados bens...tendo até conhecimento de indivíduos que "tentam" dar como garantia de rendimento para efectuar um crédito de compra de telemóveis topo de gama, o subsídio de desemprego....ora um individuo desempregado não deveria ter outras preocupações para além de uma futilidade???

S-Girl disse...

Na minha opinião os portugueses têm alguma dificuldade em distinguir consumismo de consumerismo e são dois conceitos bastante distintos. Por outro lado, o importante aqui é a sustentabilidade, isto é, se as famílias portuguesas terão capacidade de responder às obrigações da divida. No meu entender quando pensamos em endividarmos devemos primeiramente pesar se teremos no futuro recursos financeiros para liquidar a divida. Se por um lado, o endividamento é positivo pois dá aos consumidores a possibilidade de efectuarem aquisições que no presente lhe são impossíveis eles jamais puderam comprometer a sua situação futura. Portanto na decisão de endividamento quer os consumidores quer as famílias deveram ter em conta a sustentabilidade futura: " terei eu capacidade no futuro de liquidar a divida?". Repare-se que se é importante satisfazer as necessidades de consumo presentes (aquelas que estão incluídas no conceito de consumerismo) não menos verdade que é preciso ter uma poupança já que o futuro comporta incerteza é puderam existir despesas inesperadas no futuro.

Fátima Couto, nº40319

maria joão veloso disse...

É importante referir que, ao longo dos últimos anos, o património dos particulares, em percentagem do seu rendimento disponível, tem apresentado uma tendência crescente. No entanto, este crescimento da riqueza dos particulares teve como contrapartida um aumento muito significativo do endividamento, sobretudo no que se refere a empréstimos de longo prazo, destinados essencialmente à aquisição de habitação.
Ora, a forte concorrência, verificada a nível das instituições bancárias, incrementou a disponibilidade, diversificação e sofisticação dos produtos financeiros, estimulando, assim, ainda mais o recurso ao crédito.
Na minha opinião, esta evolução do endividamento dos particulares é resultado mais desta acessibilidade das famílias ao mercado de crédito e não tanto pela taxa de esforço exercida pelos agregados familiares, daí concordar plenamente com a Raquel quando esta nos diz que devemos fazer uma reflexão sobre o modo como nos endividamos, porque algumas vezes este endividamento é resultado de uma quebra do rendimento do consumidor, mas torna-se preocupante quando começa a ser resultado de negligência.
Os sucessivos aumentos das taxas de juro e as situações correntes de desemprego têm sido os factores que mais contribuíram para o aumento do endividamento, pois tornam os indivíduos mais vulneráveis a satisfazerem os seus compromissos.
A realidade, é que o nível de endivamento dos indivíduos não deve ultrapassar mais de 40% do seu rendimento, mas nos dias de hoje isso está longe de verificar.

Maria João

Anónimo disse...

comentário assinado por "m" foi escrito por Manuel Vilas...

Carla Almeida disse...

Muito sinceramente os portugueses para terem as coisas preferem o caminho mais fácil e pensam que o crédito é a solução… Seria se tivessem rendimentos seguros e suficientes para cumprirem os compromissos futuros, mas com a precariedade de emprego dos tempos de hoje já nada é certo. Na minha opinião, justificam-se os créditos para a compra de habitação e de carro porque requerem muitos recursos que só a longo prazo se obtêm, mas os restantes créditos são meras futilidades. Os portugueses têm de ser mais conscientes e analisarem bem o seu rendimento familiar pois “quem tudo quer, tudo perde”! São inúmeras as famílias que já recorreram à DECO para os ajudarem a organizar a sua vida porque o valor a pagar pelos seus créditos é já superior aos seus rendimentos! Muito sinceramente não tenho pena destas pessoas… Lamento a situação daquelas que ficam desempregadas, doentes ou que se divorciam porque isso abala o rendimento mensal, mas aquelas que simplesmente se vão endividando em tudo quanto é sítio não lamento nem me comove a sua situação. Da mesma maneira que tiveram capacidade para se endividar, que usem essa mesma capacidade para arranjar soluções para pagar. O que é preciso é ter consciência de qual o limite e o limite não é o rendimento mas sim uma pequena parte dele porque o restante é bastante necessário para se (sobre)viver.

Fernando Saraiva disse...

As instituições bancárias são na minha opinião, as grandes responsáveis pelo elevado endividamento em que se encontram as famílias portuguesas.
Através de inúmeras estratégias de marketing, facilidades de crédito, etc.., iludem as pessoas, que por natureza estão sempre dispostas a consumir. Quando o endividamento é feito para consumo corrente, torna-se bastante preocupante, infelizmente tem aumentado esta vertente do crédito.
É preciso também referir que cada vez existem mais centros de aconselhamento para pessoas que já estejam excessivamente endividadas, neles é analisada cada situação e são apontadas soluções para minorar os efeitos do endividamento, tais como a renegociação dos prazos das dividas. Mas é preciso ter a noção que estes aconselhamentos não vão resolver os problemas, para tal tem de haver uma consciencialização de cada um de nós, para sabermos até onde nos podemos endividar e também terá de haver um cuidado maior por parte das instituições bancárias para não estimularem credito desnecessário.

Sérgio disse...

Após leitura do artigo de opinião O endividamento das famílias portuguesas, venho aqui deixar uma série de dados que recentemente tomei conhecimento e bastante reveladores da precária situação a que a grande maioria dos portugueses estão sujeitos:

• Desde Janeiro, os portugueses já pediram mais de 13 mil milhões de euros emprestados à banca;
• Apesar dos constantes aumentos das taxas de juro pelo Banco Central Europeu (BCE), em média, as famílias endividam-se a um ritmo de 54,5 milhões de euros por dia;
• 113 mil milhões era a dívida acumulada das famílias à banca no final do mês de Agosto sendo o valor mais elevado de sempre (representa 75% do PIB). Cerca de 80% deste montante destinou-se à aquisição de habitação;
• Entre os meses de Janeiro e Agosto deste ano, o montante de empréstimos para consumo e para outros fins aumentou em mais de 2,5 mil milhões de euros;
• Todos os dias são pagos à banca 16 milhões de euros só em juros do crédito à habitação e crédito ao consumo num total anual de 6 mil milhões (4 mil milhões para habitação e 2 mil milhões para os restantes créditos);
• Os números do crédito mal parado ainda não são preocupantes mas agravaram-se desde o início do ano. À excepção do crédito à habitação (que diminuiu), nos restantes tipos de créditos agravou-se em 201 milhões de euros.

Apesar de tudo, estes valores ainda não são razão para travar o endividamento das famílias uma vez que as taxas de juro continuam historicamente baixas (4,35% no crédito à habitação quando, por exemplo, nos anos 90 apresentavam dois dígitos). Outras razões que justificam o aumento do recurso ao crédito em Portugal é o facto de cada vez menos gente pagar a pronto, o crescente fluxo de imigração levou ao aumento de estrangeiros a comprar casa, as classes ricas recorrem cada vez mais ao crédito em função das baixas taxas de juro, entre outros.

Sérgio Mesquita, 44140

Vânia Silva disse...

Assistimos este ano a variadas notícias nos meios de comunicação que alertavam para o problema do sobreendividamento das famílias portuguesas. Não foram também poucas as que davam conta da continuidade das dificuldades financeiras que os portugueses têm vindo a sentir. Então como é que os portugueses conseguiram gastar 2,1 mil milhões de euros até ao dia 25 de Dezembro em compras de Natal? Será finalmente a tão falada retoma? Numa notícia do diário económico de 28/12/06 refere-se que vários economistas acreditam que sim. No entanto, apesar do optimismo, não são esperadas grandes melhorias no rendimento disponível, uma vez que os juros irão continuar a aumentar, o que se reflectirá no orçamento familiar, vindo mesmo agravar a delicada situação em que já se encontram muitas famílias.

Anónimo disse...

O endividamento das famílias portuguesas tem sido muito relevante.
A taxa de poupança das famílias portuguesas manteve a tendência decrescente e as intenções de poupança dos consumidores portugueses mostraram-se muito negativas. Nisto é de realçar o ritmo de crescimento evidenciado pelo consumo privado, claramente superior ao do rendimento disponível.
O reduzido incentivo à poupança está relacionado com as condições globalmente favoráveis que se verificam no mercado de crédito, nomeadamente os níveis reduzidos das taxas de juro e a oferta de modalidades contratuais de empréstimo que permitem conter, no curto prazo, o esforço financeiro associado ao serviço da dívida.
Os créditos contraídos por particulares para consumo e outros fins que não a aquisição de habitação representavam pouco mais de um quinto do endividamento total.
As condições de oferta têm sido fulcrais para a manutenção da procura de crédito. Também o aumento progressivo da importância relativa do crédito concedido por instituições financeiras não bancárias tem sido evidente no aumento do endividamento.


Damiana Santos